Em quase mil páginas cabem também assuntos que costumamos silenciar: bebês e crianças de vida breve
O ano de 2024 foi extremamente importante para a obra UM DEFEITO DE COR de Ana Maria Gonçalves. O livro atingiu a maioridade, completando 18 anos de seu lançamento, tornou-se enredo de escola de samba, alcançou a primeira posição de mais vendidos da Amazon e inspirou uma exposição de arte. Na sequência, foi eleito o melhor livro brasileiro de literatura do século XXI, segundo júri convidado pela Folha de São Paulo.
Um Defeito de Cor mora na estante da minha casa desde 2018. E, mesmo com toda essa repercussão e holofotes, só recentemente tive fôlego para tomá-lo nas mãos e ler as quase mil páginas que narram a trajetória de Kehinde. Como bem disse Lygia Bojunga:
“…Ficou lá. Com aquela dignidade, com aquela discrição que os livros ficam na estante esperando pela gente (…). Feito coisa que ele sabe que o caso com a nossa imaginação vai ser tão mágico, tão sem limite, que vale a pena mesmo esperar.”
E foi isso que aconteceu. Nos encontramos na hora certa, na hora que tinha que ser. Vi na obra tudo aquilo que as análises de profissionais da literatura e os bate-papos com minha comunidade leitora (que são bem mais importantes que as opiniões profissionais) já haviam prometido: um retrato do Brasil do século XIX, possibilidades de repensar as heranças afro-brasileiras, compreensão da construção de nossa religiosidade, especificidades das relações interraciais, muita luta e resistência e uma Salvador pulsante que permite passear pelas ruas do Pelourinho.
Vi também algo que não imaginava e que ninguém havia me alertado: uma maneira bastante subjetiva de classificar, entender e acolher as almas que passam rápido pela Terra. Sim, os bebês e crianças breves existem e seguem com protagonismo no correr do livro.
Logo no início do primeiro capítulo, enquanto Kehinde se apresenta como originária do reino de Daomé – África e apresenta as suas pessoas, nos deparamos com a palavra ABIKU. Abikus são criança nascida para morrer e há toda uma explicação para isso:
A minha avó Dúrójaivé tinha esse nome porque também era uma abiku, o nome dela pedia “fica para gozar a vida, nós imploramos”. Assim são os abikus, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar, e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos (…). Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino (…).
Os abikus são parte das 947 páginas da obra com suas histórias e seus nomes cheios de simbologias que tentam convencê-los de que a trajetória na Terra valerá a pena. E existe todo um esforço, por parte de quem convive com eles, para que permaneçam no Ayê o máximo de tempo possível.
Não estou querendo pontuar aqui se concordamos ou acreditamos na existência de espíritos amigos que combinam de morrer para se reencontrarem logo. A ideia não é pensar se essa explicação faz sentido ou não, se nos acolhe ou não, se conversa com nossas crenças ou não. O que me pegou e que trago para esse texto foi a existência de uma narrativa que busca explicar algo que é real e, infelizmente, frequente: a morte de bebês e crianças.
Se nós aqui, no Brasil do século XXI, continuamos perpetuando o apagamento de vidas que se encerram ainda na infância, se continuamos silenciando existências, encontrei em Um Defeito de Cor uma concepção, um conceito que permite falar e pensar sobre essas mortes.
Seguindo com a leitura do livro, pude perceber que a existência de toda essa maneira de ver e entender a morte de bebês e crianças não isenta a personagem principal daquele sentimento que, construído socialmente, se tornou próprio das mães: a culpa.
Já ouvi muitas histórias de mães de colo vazio e em praticamente todas elas, nem que seja por um momento, a mãe se responsabiliza pela morte da criança. Elas (nós) acreditam que havia algo que poderiam ter feito para mudar esse desfecho. E a mesma coisa acontece com Keinde.
Mas Keinde (olha o Spoiler agora) encontra nas palavras do Baba Ogumfiditimi o abraço-conforto-verdade que todas as mães de colo vazio mereciam ouvir-entender-sentir-aceitar:
“O Baba Ogumfiditimi cantou um ponto para o meu filho, ou melhor, para Oxóssi. Disse que a morte não era motivo para tristeza, mas isso era difícil evitar quando o morto era muito jovem (…). O Baba também disse para eu não me sentir culpada, pois às vezes o trato se cumpre de qualquer maneira, mesmo que tudo tenha sido feito para segurar o abiku no Ayê.”
O trato se cumpre de qualquer maneira. Se cumpre, sim. Obrigada por nos lembrar disso, Baba Ogumfiditimi. “O chamado do Orum é muito forte”. Leiam Um Defeito de Cor, por favor.
Referências e mais informações
- Se você ainda não sentir que é tempo de ler UM DEFEITO DE COR, leia o prefácio. O prefácio é um exemplo daquele negócio que costumamos chamar de fé na vida. Tem cheiro de Bahia, sabor de acará e óleo de palma. Clima de romance de Jorge Amado com pisada firme de Ana Maria Gonçalves. É lindo e faz chorar.
- Dica de leitura: ler um livro de quase mil páginas não é uma tarefa muito fácil quando temos que dar conta de diversas outras demandas como, por exemplo, longas jornadas de trabalho. Ler exige tempo e tempo, cada vez mais, é luxo e poder. Vi muitas pessoas abandoarem a leitura dessa obra porque perdiam o ritmo e desanimavam. Para mim, funcionou criar um cronograma (um cronograma bem real com a quantidade de páginas que daria conta de ler por dia). O cronograma fez com que eu vislumbrasse um fim para essa aventura literária que, pelo volume, assusta. Funcionou. Deixo aqui como sugestão.
Imagem: Renata Gibelli

