Entrevista com Luana Vieira, liderança à frente da organização do samba e dos projetos associados ao Pagode da Disciplina

Nesta edição de março de 2026, o Expresso Periférico entrevistou Luana Vieira (Luana Disciplina), liderança à frente do Pagode na Disciplina, roda de samba tradicional que ocorre mensalmente no território do Jardim Miriam e que completou 10 anos de existência no final de 2025. O Pagode na Disciplina catalisou e ainda catalisa várias outras ações voltadas para a comunidade nesse período. Apesar das dificuldades, Luana não se deixa abater e enfrenta um ambiente ainda muito masculino (e machista) com responsabilidade e dedicação, encarando desafios como a falta de valorização, falta de recursos e de estrutura para manter o projeto em funcionamento. Sua visão vai para muito além do samba, pensando em formação política e cultural, além da organização da população preta e periférica na busca por pertencimento, educação popular e cidadania, visando à transformação social. A voz de Luana não é uma voz singular, é uma voz plural, que fala não só por ela, mas por muitas e por muitos mais que atuam nas periferias da cidade de São Paulo e de outras periferias, revelando inúmeras Áfricas presentes em cada pedaço desta nossa terra chamada Brasil. Agir na comunidade é a melhor forma de mudar o mundo. Comunidade, solidariedade, organização, coletividade. Esse é o recado de Luana.

Foto: @thi.archive

Expresso Periférico: Quem é Luana – Disciplina?

Luana: Sou uma mulher preta, periférica, mãe, educadora popular e organizadora comunitária da Zona Sul de São Paulo. Minha trajetória nasce no território, no movimento cultural da periferia e na militância do movimento negro. Ao longo da minha caminhada, passei a atuar fortemente na educação popular e na luta pelo acesso da juventude negra e periférica à universidade, especialmente a partir da atuação na Uneafro Brasil. Hoje, organizo o projeto comunitário Pagode na Disciplina, no Jardim Miriam, que articula cultura, educação e organização comunitária. Minha atuação conecta samba, formação política, cursinho popular e iniciativas como biblioteca comunitária, sempre com o objetivo de fortalecer o território e ampliar horizontes para a juventude da periferia.

EP:  Qual a história do Pagode na Disciplina?

Luana: O Pagode na Disciplina nasce no Jardim Miriam, Zona Sul de São Paulo, como uma roda de samba da comunidade. Muito antes de se tornar um projeto social, a roda já reunia centenas de pessoas do território e se consolidava como um espaço cultural da quebrada. Com o tempo, surgiu a reflexão de que o samba também poderia ser uma ferramenta de educação e organização comunitária. A partir dessa ideia e da aproximação com a Uneafro Brasil, o Pagode na Disciplina passa a se estruturar também como núcleo de educação popular. Assim, além da roda de samba, o espaço começa a desenvolver iniciativas voltadas para formação educacional, mobilização comunitária e acesso ao conhecimento, como o cursinho popular e a construção de uma biblioteca comunitária, ampliando o acesso a livros e leitura dentro do território. O que era apenas uma roda de samba de rua se transformou em um espaço coletivo que une cultura, educação, solidariedade e consciência racial e política.

EP:  Quais os projetos do Pagode na Disciplina no momento atual?

Luana: Hoje o Pagode na Disciplina atua em várias frentes no território:

• Roda de samba comunitária, mantendo viva a tradição do samba como espaço de encontro, cultura e convivência;

• Cursinho popular e formação educacional, ligado à Uneafro Brasil, incentivando jovens da periferia a ingressarem na universidade e ampliarem seus horizontes educacionais;

• Biblioteca comunitária, com espaço de acesso ao livro e à leitura dentro do território, fortalecendo a formação cultural, política e intelectual da comunidade;

• Ações de solidariedade e apoio comunitário, com distribuição de alimentos, apoio a famílias em vulnerabilidade e mobilização em momentos de crise, como aconteceu durante a pandemia.

Essas iniciativas mostram que o projeto vai muito além do samba, ele atua na construção de um território mais forte, consciente e organizado.

EP:  Quais as principais dificuldades nesses 10 anos?

Luana: As principais dificuldades sempre estiveram ligadas à realidade dos projetos comunitários periféricos, como: a falta de financiamento contínuo para iniciativas culturais e educacionais; pouca valorização institucional da cultura produzida na periferia; necessidade constante de manter o projeto funcionando com base em trabalho militante e voluntário; desafios estruturais do próprio território, como desigualdade social e falta de políticas públicas. Mesmo assim, o Pagode na Disciplina se manteve de pé por mais de uma década justamente por ser um projeto construído pela comunidade.

EP: Como mulher preta, periférica, mãe e organizadora, como você vê a participação das mulheres no samba?

Luana: O samba historicamente foi um espaço muito marcado pela presença masculina, apesar de ter sido sustentado desde sempre pela força das mulheres negras, nas cozinhas das rodas, na organização das comunidades, nas escolas de samba e na cultura popular. Como mulher preta organizando um projeto como o Pagode na Disciplina, eu vejo que ainda existe uma disputa por reconhecimento e protagonismo das mulheres no samba. Mas também vejo mudanças importantes acontecendo. Cada vez mais mulheres estão assumindo papéis de liderança, produção cultural, composição e organização. No Pagode na Disciplina, buscamos construir um espaço onde as mulheres não estejam apenas nos bastidores, mas também na condução das decisões e dos caminhos do projeto.

EP: Território, memória, resistência e ancestralidade. Como você vê o papel do Pagode na Disciplina frente a essas questões?

Luana: Para nós, o Pagode na Disciplina não é apenas um evento cultural. Ele é um espaço de memória e resistência do povo negro na periferia. O samba sempre foi uma linguagem ancestral de sobrevivência, encontro e transmissão de saberes. Quando ele se encontra com educação popular, biblioteca comunitária e organização política do território, ele se transforma também em ferramenta de transformação social. O Pagode na Disciplina representa a ideia de que nossos territórios produzem cultura, conhecimento e futuro. É uma forma de afirmar que a periferia também é lugar de memória, de ancestralidade e de construção de caminhos para as próximas gerações.

EP: Algo que gostaria de acrescentar?

Luana: O Pagode na Disciplina é uma construção coletiva da comunidade. Ele existe porque muitas pessoas acreditaram que cultura, educação e organização popular podem caminhar juntas. Nosso trabalho mostra que a periferia cria suas próprias soluções, seus próprios espaços de formação e suas próprias redes de cuidado. E talvez essa seja a principal mensagem do projeto: quando uma comunidade se organiza, ela cria caminhos onde antes só existiam limites.

Fotos: José Cícero

One thought on “Pagode na Disciplina, 10 anos de muito samba, resistência e pertencimento no Jardim Miriam, Zona Sul de São Paulo”

Comments are closed.