A história de Fernando se confunde com os últimos 60 anos de luta política pela construção de um Brasil mais justo, mais igualitário e mais humano. Por Eurico Pereira de Souza
Fernando do Ó Veloso (23/08/1942 – 20/12/2025). Fernando do Ó, sempre assim chamado pela companheirada, partiu semanas atrás. A história de Fernando se confunde com os últimos 60 anos de luta política pela construção de um Brasil mais justo, mais igualitário e mais humano; sua história se confunde também com o movimento sindical de oposição metalúrgica de São Paulo; se confunde ainda com o doloroso momento da morte do companheiro operário Santo Dias; por fim, se confunde com a diversidade de movimentos sociais e políticos espalhados pela capital paulistana, em particular, com a região sul da Capital, movimentos que sempre tiveram no horizonte a edificação de um país mais justo e, em muitos deles, o horizonte de que o socialismo, no país, seria possível.
Nascido em Tauá, no Ceará, Fernando do Ó, com sua vida vinculada à história do Brasil, cumpriu a sina de muitos nordestinos: já aos sete anos de idade ajudava os pais e os irmãos na roça. Em 1961, com apenas 19 anos, chega a São Paulo. Como disse “foi o primeiro do Ó de sua família a pisar por essas terras”. Se hospeda por uns meses na casa de um amigo na Vila Gustavo. Consegue um emprego por três meses em uma pequena metalúrgica chamada Brinquedos Bandeirante. Fernando sempre quis estudar, mas isto esperaria um pouco. Depois trabalhou de garçom em um bar na região da Avenida Paulista e em outros bares na região da Mooca.
Fernando queria estudar, e continuar trabalhando em bares ficaria tal objetivo mais difícil. Um amigo ajuda-o a encontrar um emprego no Banco Mercantil de Minas, localizado no largo São Bento. Até 1967, Fernando trabalha neste local. Posteriormente, soube que o banco abriu uma agência em Fortaleza, e assim, conseguiu uma transferência. Morando em uma república com outros funcionários da empresa, Fernando, em Fortaleza, consegue iniciar o supletivo com vista a concluir o curso colegial (atual Ensino Médio). Diante das contradições políticas que ocorria no país, Fernando começa a vivenciar a compreensão concreta do que era este país chamado Brasil. Convidado por um casal de colegas, um do banco, e uma jovem estudante, foi a uma manifestação de protesto contra a morte do estudante secundarista Edson Luiz, ocorrida no Rio de Janeiro. Soube que o estudante era do movimento secundarista e que lutavam para manter o restaurante Calabouço (que oferecia alimentação mais barata para a estudantada) que o governo da época queria fechar. No confronto com as forças da repressão, Edson Luiz foi assassinado. Fernando considera que este momento em 1968, em Fortaleza, foi o início de sua militância política e de sua formação crítica.
Na semana seguinte, iniciava a campanha salarial dos bancários. Rapidamente, e até meio perdido, as contradições expostas pela luta de classe começa propiciar em Fernando o que viria ser a consciência da exploração que os trabalhadores sofriam. Aumento de salário, greve, organização dos trabalhadores nas agências, piquetes, assembleia, são termos que a ferro e fogo Fernando vai, aos poucos, compreendendo. E o mais particular neste início da militância de Fernando é uma experiência pessoal singular: sem saber o que significa ação clandestina, Fernando teve que criar suas estratégias nesta direção, pois morava em uma hospedagem do banco junto com funcionários mais graduados que, pela função, eram contrários a qualquer possibilidade de greve.
Fenando lembra que Fortaleza, naquela época, tinha 35 agências bancárias. Com a greve, conseguiram parar 25. E o saldo da reposição salarial foi positivo. Nesta experiência, Fernando lembra que começou a ser convidado a se inserir no PC do B, e também por outros grupos, entre eles, os trotskistas. Rememora em um livro que escreveu décadas depois (aqui já em São Paulo), intitulado “História vista por dentro”, que este momento em Fortaleza, tornou “um sonho que virou sonho. Eu tinha um sonho individualista e, de repente eu estava naquela luta de um sonho coletivo”.
Em 1970, trabalhando no mesmo banco, Fernando retorna definitivamente para a capital paulistana. Se insere imediatamente no movimento de oposição bancária. Anos depois, se vincula ao PC do B. Devido a militância, perde emprego e começa a ter dificuldade em se manter na área bancária. Buscando alternativas, ouvia sobre as possibilidades de emprego na área metalúrgica e, assim, procurou uma escola particular, localizada em Santo Amaro, e fez o curso de Ajustador Mecânico. Paralelo a isto, na metade da década de setenta, ocorria no PC do B o debate a respeito da estratégia de guerrilha do Araguaia e as perdas políticas e afetivas que tal experiência trazia para o partido e para o Brasil. Foi um momento de grande formação sobre as estratégias possíveis de transformar o Brasil e o limites que se impunham às forças de esquerda, ao lado também, dos sinais de que a ditadura militar começava mostrar suas fraquezas, pois perdia legitimidade ao querer somente se sustentar pelo uso da violência pura.
Já se inserindo na área metalúrgica, e morando próximo da região do M’Boi Mirim em Santo Amaro, Fernando, atento ao que ocorria no bairro, percebeu que a Igreja Católica já desenvolvia ações com vista ao atendimento aos mais pobres e às denúncias sobre grau de pobreza presente nas periferias. Movimentos como Clube de Mães, Movimento contra a Carestia, cursos de Alfabetização de adultos, ocorriam em salões da Igreja e até em Sociedade Amigos do Bairro. Sabendo por amigos que havia uma articulação na comunidade para denunciar e encaminhar demandas à situação de transporte precária na região citada, Fernando conhece o companheiro Santo Dias, um dos protagonistas dessa ação.
Já trabalhando juntos na comunidade, Santo e Fernando do Ó desenvolvem diferentes atividades na região. Santo Dias que era participante da Pastoral Operária leva Fernando a conhecer e, posteriormente a se integrar, ao Movimento de Oposição Metalúrgica de São Paulo. Anos seguintes, já em 1978, Fernando do Ó fará parte da Chapa 3 de oposição à direção do Sindicato do Metalúrgicos de São Paulo. Encabeçava a referida chapa o companheiro Anisio Batista, e no outro lado, estava o lacaio da ditadura, o legendário pelego Joaquinzão. Em outra eleição, Fernando também esteve na chapa de oposição. Em ambas, a oposição foi derrotada. Na região sul de São Paulo, particularmente nos arredores do bairro de Santo Amaro, as fábricas como a Estron, MWM, Scan, Toshiba, foram locais nos quais Fernando trabalhou ou atuava nas articulações para os contatos com a companheirada, no trabalho clandestino de comissões de fábrica, nos piquetes em períodos de greve, e nos encaminhamentos das demandas dos trabalhadores quando estavam em negociações com os patrões.
As greves dos metalúrgicos da região do ABCD cumpriam a missão de um grande movimento que fragilizava a hegemonia da Ditadura. Fernando, com muitos companheiros, articulou, em diferentes bairros, a coleta de alimentos para apoiar o Fundo de Greve dos companheiros do ABCD. Paralelo a isto, a campanha salarial dos metalúrgicos em 1979 de São Paulo também ocorria. Fernando do Ó avalia que as greves dessa campanha foram muito mais difíceis que as dos anos anteriores. E foi nesta greve, em outubro de 1979, que Santo Dias foi assassinado pela Policia Militar de São Paulo. Tal fato marcará dolorosamente milhares de militantes e a oposição sindical em nosso país.
Já nos fins do anos setenta, Fernando do Ó, como tantos outros companheiros, se desligam do PC do B, e iniciam a participação no PT, já no momento de sua fundação. A organização inicial do partido com núcleos espalhados por bairros, indicava uma perspectiva na qual as ideias e valores de ampla democracia interna, podia fazer o partido estar a serviço da organização dos trabalhadores e dos movimentos sociais das periferias do país. Neste intuito, já na segunda metade dos anos 80, Fernando sai candidato a deputado federal, mas não obtém resultado favorável. Ao fim dessa mesma década, o PT já sinalizava que poderia tomar outro rumo. Os núcleos, como ampla experiência de participação popular na organização partidária, foram suprimidos. Na vida pessoal, a década de 80 não é fácil para Fernando, como também para muitos militantes sindicalistas da Oposição Sindical. Muitos, colocados nas listas de indesejáveis pelas empresas, ficavam vagando de metalúrgica em metalúrgica para conseguir emprego e, recebiam um não!! Tantos tiveram que mudar de atividade para poder levar a comida para os filhos, e Fernando teve que seguir também esta mesma lida.
Exatamente a partir da segunda metade dos anos 80, Fernando junto com companheiros do Parque Arariba, Parque Regina, Jardim Ângela, Santo Amaro, Jardim Miriam, e Pinheiros, já debatiam as possibilidades de o PT avançar para uma perspectiva organizacional distante dos movimentos sociais. Havia alguns indicadores que sinalizavam tal questão: uma juventude era incorporada continuamente na estrutura partidária, e o critério de ter formação acadêmica assumia a centralidade no vínculo com o partido. Obviamente, por parte destes companheiros, não havia nenhuma rejeição à renovação necessária da vida partidária, porém, o que preocupava era a possibilidade do PT começar descartar centenas de militantes que foram forjados no ferro e no fogo das lutas sociais e sindicais. Militantes formados concretamente nas negociações sindicais em articulação direta com a organização nas fábricas e nos bairros; militantes dos bairros, formados na organização popular, sabedores das estruturas administrativas em suas cidades e os meios para forçar a criação de políticas públicas. Infelizmente tal prognóstico é o que foi se amoldando no PT. Na organização partidária, a tendência era avançar para uma burocratização das relações da militância com os parlamentares e com as lideranças; e a face política desse fenômeno seria a centralidade da luta que desenvolvida unicamente pela via institucional, cuja consequência geral seria o distanciamento continuo do partido, seus parlamentares e lideranças, dos movimentos sociais, dos movimentos populares, e das bases sindicais.
Fernando do Ó e estes companheiros também já acompanhavam o avanço do mesmo fenômeno da burocratização na vida sindical. Sindicatos cada vez mais aparelhados em vista de interesses de diferentes correntes políticas, com o reverso devastador de continuamente se desligarem dos contatos e demandas das bases, ou seja, da vida concreta dos trabalhadores. É neste espirito que Fernando e tais companheiros irão defender a ideia de “Sindicato Livre”, ou seja, um programa de organização sindical no qual as organizações dependam diretamente e unicamente da organização dos trabalhadores. Paralelo a isto, tais companheiros, avaliando que as transformações necessárias ao Brasil em direção de mais justiça social e igualdade, não poderia ser um fato desligado da América Latina, entendiam que a militância necessitava de um conhecimento maior da história da luta política latino-americana, suas experiências dos confrontos políticos, como dos confrontos armados. Tudo poderia servir de lição para a formação política, ao lado do valor de que o Brasil deveria construir um vínculo maior com a cultura política latino-americana. Neste intuito, estes companheiros irão formular um projeto de um Centro Cultural Latino-Americano, que, infelizmente, teve vida curta devido a diferentes adversidades.
Fernando do Ó sempre manteve a cabeça erguida quando vivenciava as dificuldades da vida material, e tal situação nunca o fez abandonar a militância. Pelo contrário, buscou sempre alternativas para conseguir o rendimento em vista de sua sobrevivência e dos familiares. É neste contexto que Fernando fará vendas de camisetas estilizadas com mensagens dos valores de esquerda. Posteriormente, também venderá livros. Ainda nos períodos finais de militância no PT, fará parte da assessoria do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh e posteriormente do Vereador Beto Custódio.
Nas últimas décadas, Fernando continuava a militância. Saiu do PT e ingressou no PSOL. E há que se lembrar que ainda atuou junto a movimentos sociais da região de Santo Amaro, por exemplo, nas atividades recentes contra a privatização da Sabesp.
Devemos nos perguntar sobre a força, o compromisso e a entrega de Fernando por tantas décadas à luta por um Brasil mais justo, mais igualitário, um Brasil em que a classe trabalhadora tivesse dignidade no seu mais alto significado. Tal pergunta a nós mesmos é necessária pois muitos grandes companheiros deixaram a luta no meio do caminho. Muitos não suportaram as derrotas e talvez não souberam ler as vitórias, embora pontuais, mas importantes obtidas pela classe trabalhadoras; outros, simplesmente deixaram a militância para cuidar da vida privada; e há aqueles que mudaram de lado. Fernando do Ó Veloso percorreu quase sessenta anos de militância política!!! A que se deve tanta persistência? A que se deve tanta sabedoria para continuar na luta até o fim de sua vida entre nós?
Talvez uma pista para esta questão encontramos na reflexão do velho Nicolau Maquiavel em sua famosa obra Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, escrita em pleno Renascimento, entre 1513 e 1517. Começando pelo nome do capítulo 31, do livro 3, “As repúblicas fortes e os homens excelentes mantêm em qualquer fortuna o mesmo ânimo e a mesma dignidade”. Maquiavel trata neste capitulo, o quanto, na atividade política de uma república livre, como a de Roma, o agente político deve ter clareza principalmente das adversidades e como enfrentá-la com ponderação e coragem. E em certa passagem do texto fala sobre a sabedoria daquele que muito “ficou tarimbado” diante dos reveses da luta política. Assim, Maquiavel escreve: “… fazendo-o conhecer melhor o mundo, fá-lo-á alegrar-se menos com o bem e entristecer-se menos com o mal”. O significado para o nosso momento histórico parece cristalino como exigência moral a todo militante. Maquiavel diz que aquele que conheceu perfeitamente a natureza da política, tem plena clareza que ante as vitórias, há que se comemorar, mas, não ficar deslumbrado! E diante das derrotas, que sempre são muitas, há que chorar e dividir as dores com a companheirada, mas, jamais perder o rumo de desistir da luta! Esta sabedoria já indicada por Maquiavel fez parte da vida de Fernando do Ó, e pode nos explicar porque Fernando foi um grande, entre os grandes, da nossa esquerda!
Fernando do Ó partiu!!! A memória do companheiro é uma tarefa que, de agora em diante, cabe a nós. Walter Benjamim (1892-1940), filósofo da Escola de Frankfurt, que unia em seus escritos, o pensamento marxista, a messianismo judaico e o Romantismo alemão, se debruçou intensamente em suas reflexões sobre o papel da memória para aqueles que lutaram em vista da construção de um mundo mais justo. Primeiramente, Benjamin chama atenção para um outro tipo de narração dos fatos históricos que seria a narração daqueles que foram os vencidos. O que seria a narrativa histórica se consideramos as falas dos vencidos? Neste espírito, Benjamin convoca todos os movimentos libertários da história, cuja libertação não se concretizou – portanto os movimentos dos que foram derrotados -, a cultivar, na luta cotidiana, a preservação da memória daqueles que já tombaram. Para Benjamin, esta ação nada tem a ver com um viés religioso, mas está vinculada de maneira essencial à dramaticidade da luta política que se transcorre ao longo da história: trazer no cotidiano a memória dos companheiros que tombaram, serve como energia para continuarmos na luta, pois os companheiros lutaram até o fim de suas vidas e não viram a justiça se realizar e, por isto, eles nos clamam para continuarmos lutando!!! Para Benjamin, este cultivo da memória entre nós que aqui estamos, e os companheiros que já tombaram, é necessária por um simples motivo: eles e nós fazemos parte de um mesmo continuum. Fazemos parte todos, sejam os nossos mortos, e o vivos, da luta que começou muitos séculos atrás e, enquanto houver uma pessoa, uma criança, passando fome, enquanto houver um trabalhador sem moradia, enquanto houver pobres largados morrendo por falta de saúde, enquanto houver indígenas expulsos de suas terras, enquanto houver pessoas humilhadas somente por serem quem são, pobre, negro, indígena, enquanto houver pessoas perseguidas somente por causa de sua orientação sexual ou sua identidade de gênero, a luta continua!!!! Os derrotados devem fazer da memória sua energia e força de luta, como pede Walter Benjamin. Fernando do Ó continua na luta porque continuará em nossa memória!
Fernando do Ó Veloso PRESENTE!! E SEMPRE!!!!
Ps. Exatamente nestes dias em que este texto é escrito pela memória de Fernando do Ó, a Venezuela, como mais uma experiência de esquerda (entre tantas outras) em organizar e fazer a gestão da sociedade, em perspectiva de outra visão de mundo que não a capitalista, recebe o ataque das forças dos EUA, recebe a agressão do império. Isto somente reafirma a tese de Benjamin: os nossos mortos, os vivos, as experiências da esquerda no mundo, e hoje, a Venezuela, fazemos parte de um mesmo continuum de luta!!!
Referências e mais informações
- O conteúdo desse texto resultou de duas fontes: primeiramente, o Museu da Pessoa, no qual se encontra um depoimento de Fernando do Ó, feito em abril de 2022. E também uma roda de conversa, realizada em 21/12/2025 entre três militantes que, em certo momento da vida, conviveram e desenvolveram atividades conjuntas com Fernando do Ó.
- Elias Rego. Militante sindical, metalúrgico vinculado à Oposição Sindical na região de Santo Amaro, entre o fim dos anos setenta até os anos 80. Elias, continuou na área metalúrgica até meados dos anos 90.
- Geraldo Sardinha. Militante desde do movimento secundarista do restaurante Calabouço no Rio de Janeiro. Exilado por um período no Uruguai, com participação no MLN -Tupamaros, e retorno ao Brasil por volta dos anos 70, reiniciando sua militância em nosso país até o momento presente. Hoje é membro dos Irredentos, cujo foco de ação é o cultivo da memória das lutas, memória dos companheiros que já tombaram, e memória dos movimentos civis e armados que transcorreram na Amarica Latina, ao longo do século XX.
- Eurico Pereira de Souza. Militante dos movimentos populares na região sul nos anos 80, em particular da região do Jardim Miriam, Americanópolis e Cidade Ademar. Professor universitário, membro do Centro de Diretos Humanos Fr. Tito de Alencar Lima, e dos Irredentos.
Imagem: Acervo do Museu da Pessoa

