Como chegamos a esse ponto?

Com o advento das oportunidades geradas pelo trabalho via APP, muitas pessoas viram na chance ilusória de flexibilização de horário e autonomia a possibilidade de ganharem mais do que ganhariam pela CLT. Hoje, no entanto, com muita facilidade é possível compreender as ciladas que envolvem esse tipo de serviço por aplicativos. Mas então porque 59% das brasileiras e brasileiros entrevistadas/os pelo Datafolha em 2025 preferiam trabalhar como autônomas/os?  A resposta para essa pergunta certamente tem relação com o desmonte dos direitos trabalhistas, em que a negociação desleal com patrão está acima do legislado. 

A reforma trabalhista criou um beco sem saída para muitas pessoas, encontrando ali o meio mais rápido para acesso ao trabalho e com a ilusão de autonomia. A pessoa então, com seus próprios recursos, adquire um veículo, baixa o app, segue todas as instruções e inicia o serviço. Muitas vezes, no entanto, os custos envolvendo a manutenção e abastecimento do automóvel nem sempre são considerados como gastos pela pessoa trabalhadora, muito menos os riscos e a garantia de amparo caso sofra algum acidente, o que dá a sensação de ter o “dinheiro na mão”. Vivemos em um momento de extrema precarização. A destruição dos direitos trabalhistas em 2017 abriu as portas para a exploração por meio do que chamamos hoje de uberização.

O discurso de que essas/es trabalhadoras/es são “parceiras/os” e não funcionárias/os é falsa, porque o que ocorre aqui é a prestação de um serviço onde não há negociação justa. É sabido que esses apps são programados para bloquear aquelas e aqueles que negarem serviço. Além disso, a maneira como é programado estimula o trabalho intermitente por meio da gameficação. Não há nenhum recurso nesses sistemas que preze pela segurança e cautela da/o motorista, o que há é o constante estímulo para produção de trabalho. Quando interrogados, os donos dessas grandes empresas alegam que oferecem oportunidades para quem precisa trabalhar e não se responsabilizam pelas condições em que essas pessoas estão, apoiados na ideia capitalista de que os mais fortes sobreviverão.

Na verdade, cara leitora, caro leitor, é que se estamos hoje sem opção para trabalho digno e com direitos, não é porque fomos incapazes e não merecedoras/es. Um grande investimento por parte dessas empresas vem sendo feito há anos em conjunto com políticos de direita para que o quadro atual chegasse aonde está, tornando as opções de trabalho limitadas e sem perspectiva para que, assim, eles possam pagar muito pouco sem garantir mínimas condições de serviço. Constantemente se escuta a narrativa de que estamos em uma nova era em que o empreendedorismo toma conta do mundo e que a Inteligência Artificial em breve acabará com o trabalho. No entanto, a realidade se parece mais com a do século XIX.

O que não se percebe é a imensa massa de trabalhadoras/es precarizadas/os trabalhando por muito pouco, tendo o algoritmo como patrão. Para além dos serviços de entrega e transporte, é importante lembrar das pessoas pagas para treinar IA. Por trás de toda essa sofisticação, mais uma vez, encontramos um grupo imenso de trabalhadoras e trabalhadores prestando serviços para grandes empresas em troca de um salário de fome. Esse grupo, em sua maioria, estão nos países já historicamente explorados pelo capitalismo, onde se é possível oferecer 2 dólares por hora para que fiquem diante da tela analisando conteúdo muitas vezes impróprio, na intenção de “treinar” a ferramenta. Esse cenário fica ainda pior se considerarmos a demanda de espaço para instalação dos Datacenters, campos de armazenamento de dados, que consomem água e energia em proporções absurdas e não geram empregos. A ideia de que tudo hoje é abstrato, é virtual, acontecendo como mágica pela internet, é mentira. Existe grande demanda de espaço físico e de força de trabalho mal remunerada. 

O Expresso Periférico segue por mais um ano lutando exaustivamente para lhe dizer que outra vida é possível, ciente de que o trabalho ainda é o principal meio de produção de riqueza do capitalismo. Só a luta garante a dignidade. Para isso, é preciso tempo para pensar, tempo para viver e se dar conta da própria situação.  Com isso, é fundamental o apoio ao fim da jornada 6×1 e a regulamentação das trabalhadoras e trabalhadores plataformizadas/os.

Imagem: Filipe Araujo/Fotos Publicas

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