Celebrar não basta: é preciso transformar. Por Coletiva de Mulheres e MMM
A luta das mulheres nasce da nossa capacidade histórica de auto-organização feminista. Em 8 de março de 1917, inspiradas pela luta das feministas socialistas no mundo, mulheres trabalhadoras saíram às ruas em uma ação coletiva de enfrentamento à fome, à guerra e à exploração, dando início ao processo que desencadeou a Revolução Russa. Nesse levante, as mulheres colocaram a sobrevivência, o trabalho e a dignidade no centro da luta política. Essa história nos ensina que, quando nós, mulheres, nos organizamos, abalamos as estruturas do poder, abrimos caminhos revolucionários e transformamos a história.
O 8 de março é um dia de luta internacional. É um dia para lembrarmos que, apesar de “celebrar e não esquecer” as conquistas históricas, as mulheres continuam a ser sobreviventes de violências que marcam profundamente vidas, famílias e toda a sociedade.
Feminicídio no Brasil: números não podem ser naturalizados.
O feminicídio, entendido como o assassinato de uma mulher por sua condição de gênero (por ser mulher), segue como uma realidade brutal no Brasil. Dados oficiais da Agência Brasil apontam que 1.518 casos de feminicídio foram registrados em 2025 no país, um número que representa cerca de quatro mulheres mortas por dia apenas por serem mulheres, na maioria das vezes dentro de suas próprias casas, pelo marido, namorado, companheiro ou ex-companheiro. A maioria dessas 1.518 mulheres eram negras, demonstrando a intersecção entre o machismo, a misoginia e o racismo. Mulheres com deficiência, em especial as que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, também são privadas de direitos básicos e vítimas de violência patriarcal.
Esses números são reflexo de uma violência estrutural, que não é fruto de acontecimentos isolados, mas sim de relações sociais de poder que persistem através do machismo, do racismo e da hierarquia de classe. Sabemos que a violência de gênero é uma ‘ferramenta de controle’ do sistema patriarcal e capitalista, ou seja, é utilizada para manter o controle sobre a vida, a sexualidade e a fertilidade e o trabalho das mulheres.
Enquanto alguns indicadores gerais de homicídios totais podem oscilar ano a ano, a violência contra as mulheres (especialmente femicídios, estupros e abusos) continua sendo persistente e, em muitas regiões, crescente.
Racismo e opressões estruturais que atravessam o feminicídio
Os dados também evidenciam que a violência não é distribuída de forma igualitária. Mulheres negras, periféricas, empobrecidas e com menor acesso a recursos enfrentam vulnerabilidades maiores. Estudos mostram que a interseção de opressões (raça, etnia, classe e espaço geográfico) multiplica os riscos e as consequências da violência de gênero. (Agência Brasil)
Essa realidade materializa-se no cotidiano das periferias, onde o machismo e os racismos institucional e ambiental se combinam com a ausência de políticas públicas efetivas de proteção, atendimento e prevenção.
A violência reverbera na saúde mental
A violência de gênero não mata apenas com a brutalidade física dos assassinatos; ela adoece profundamente as mulheres e comunidades. A literatura especializada aponta que experiências continuadas de violência física, psicológica ou sexual estão associadas a quadros elevados de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, síndrome do pânico e outras condições psiquiátricas. (Organização Mundial da Saúde)
Viver com medo (medo de sair na rua, de ser assediada, de estar em espaços públicos ou de enfrentar a hostilidade cotidiana) não é condição natural, é um efeito da violência estrutural que desumaniza e fragiliza a vida das mulheres.
Quando a política pública é insuficiente
A cada debate público sobre feminicídio, frequentemente surgem respostas que minimizam o problema ou o colocam como questão abstrata. Mas, para milhões de mulheres brasileiras, essa violência tem rostos, histórias e impactos concretos. E não bastam apenas leis punitivas: são necessárias políticas públicas integradas que ataquem as causas profundas — educação contra a violência, serviços de acolhimento e proteção, atendimento em saúde mental, transformação cultural, participação de todos e do Estado nas tarefas diárias do trabalho doméstico e de cuidados e ações que desestimulem e enfrentem o ciclo de machismo e agressão desde a origem.
Todas as pessoas precisam se envolver com essa causa.
Como defensoras da garantia dos direitos, precisamos também provocar nossos leitores do sexo masculino. É necessário que homens considerem que papel eles têm desempenhado nas suas relações sociais: na escola, nas igrejas, templos ou terreiros, no futebol com os amigos, no bar, nas rodas de conversa, nas redes sociais e na família.
Trata-se de saber não agredir, e também de intervir ativamente contra o machismo presente nas falas, nas piadas, no silêncio cúmplice que naturaliza a opressão das mulheres (omissão também é cumplicidade). A transformação real exige que eles olhem para si mesmos, para as estruturas que os privilegiam e os condicionamentos que sustentam a cultura da violência.
Assim como não basta não ser racista, também não basta não ser machista, temos que efetivamente lutar contra o racismo e o machismo
Devemos reconhecer que, muitas vezes, quando o assunto é feminicídio ou violência contra mulheres, há uma reação defensiva imediata: homens se sentem atacados ou vitimizados por críticas ou debates desconfortáveis. É preciso lembrar que o machismo não é soma de intenções individuais, mas resultado de uma cultura que legitima o controle sobre os corpos, o trabalho e as vidas das mulheres. E nesse processo, são as mulheres que, historicamente, carregam as consequências das opressões e os homens, enquanto grupo social historicamente privilegiado, são os sujeitos que oprimem e se beneficiam dessa opressão.
Toda a sociedade perde com a morte das mulheres
O feminismo não mata ninguém, mas o machismo mata mulheres, meninas, crianças e pessoas LGBTQIAPN+ todos os dias
Além da vida ímpar de cada mulher que está em jogo, o tecido social inteiro se desfaz quando mulheres são assassinadas ou adoecidas pelos vários tipos de violência. Mulheres são mães, educadoras, trabalhadoras, agentes de comunidade. Elas geram e sustentam a vida cotidiana em todas as suas formas. Não é uma metáfora ideológica: mulheres são a base real de muitas famílias, redes de solidariedade e processos de reprodução social.
Quando perdemos mulheres para a violência, perdemos futuro, memória e cuidado. Por isso, a luta contra o feminicídio não é uma pauta de gênero isolada, é um pedido urgente por políticas públicas que contemplem também processos de educação de gênero, justiça social, dignidade e civilidade democrática.
No dia 8 de março e em todos os outros dias, resistimos para viver e lutamos por uma vida digna e justiça econômica, social, racial e climática. Por justiça reprodutiva com aborto seguro, legal e gratuito, e contra todas as formas de violência e de precarização da vida das mulheres. Defendemos a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, o fim da escala 6 x 1, o reconhecimento da centralidade do trabalho doméstico e de cuidados para a vida, assim como a socialização desses trabalhos, historicamente invisibilizados e impostos às mulheres.
É urgente construir uma sociedade que coloque a vida no centro, que valorize todas as pessoas, a natureza, as culturas, os tempos e os trabalhos que sustentam a vida, com justiça, paz, direitos e sem violência.
Mudar a vida das mulheres e mudar o mundo! E mudar o mundo e a vida das mulheres, em um só movimento!
Coletiva de Mulheres – Expresso Periférico
A Coletiva de Mulheres é um espaço feminista, antirracista e popular formado por mulheres plurais da Zona Sul de São Paulo (Cidade Ademar, Pedreira e Jabaquara). Surgida da união de mulheres que escreveram na seção “Nosso Lugar de Fala” do jornal digital Expresso Periférico, a Coletiva valoriza a escrita e a comunicação como ferramentas de expressão, resistência e cuidado com as experiências das mulheres periféricas.
Com uma trajetória construída a partir das vivências e histórias de vida de mulheres que enfrentam opressões de gênero, raça e classe, o grupo promove reflexões, publicações e rodas de conversa para dar visibilidade às vozes femininas historicamente silenciadas.
A Coletiva articula práticas de ativismo e produção de conhecimento para fortalecer laços comunitários, ampliar a participação das mulheres em espaços de luta social e reivindicar direitos básicos, como trabalho digno, cuidados, saúde e representatividade política.
Marcha Mundial das Mulheres
Somos um movimento feminista internacional que está organizado em mais de 60 países e em 5 regiões do mundo. Aqui no Brasil, nos articulamos em 23 estados, com coordenações estaduais, municipais, núcleos e coletivos territoriais.
Mudar o mundo e mudar a vida das mulheres em um só movimento. Igualdade para todas. Fortalecimento de espaços coletivos das mulheres: populares, autônomos e diversos. Ações com criatividade para enfrentar o capitalismo patriarcal, racista e lesbobifóbico. Construção de alianças com os movimentos sociais em luta para transformar o mundo. Vincular o trabalho permanente em âmbito local com os temas e processos globais. Solidariedade e internacionalismo. São estas as principais características que levaram à construção da Marcha Mundial das Mulheres como um movimento permanente no Brasil e em todo o mundo.

