Entre São Paulo e a Argentina, duas mulheres constroem amor, militância e capoeira como práticas de cuidado, acolhimento e transformação social.
Em um mundo que ainda insiste em negar direitos, afetos e existências, celebrar o amor entre duas mulheres lésbicas é também um ato político. Mais do que uma história de união, a trajetória de Janaína Fidell e Florencia Castoldi é feita de militância cotidiana, cuidado coletivo e compromisso profundo com a justiça social.
Janaína, brasileira, e Florencia, argentina, constroem juntas uma vida atravessada pela luta em defesa da população LGBTQIAPN+, de povos imigrantes e refugiados e de todas as pessoas historicamente empurradas para as margens. Há anos, escolheram São Paulo como território de vida, trabalho e resistência. Recentemente, atravessaram novamente fronteiras para realizar, na Argentina, a cerimônia de renovação de seus votos — um gesto simbólico, potente e profundamente político, que reafirma o direito ao amor, à família e à livre circulação dos afetos.
No território, Jana e Flor atuam de forma incansável por meio do grupo Novas Raízes, levando a Capoeira como prática emancipatória, educativa e de cuidado. De segunda a sábado, de forma gratuita e muitas vezes nos horários de descanso, garantem que crianças, mulheres e pessoas em situação de vulnerabilidade tenham acesso a essa arte ancestral. A Capoeira, para elas, é mais do que movimento: é reconexão com o corpo, fortalecimento emocional, construção de pertencimento e processo coletivo de cura.
Defender o direito das mulheres lésbicas de amar, existir e ocupar espaços é parte inseparável dessa caminhada. Assim como defender que a Capoeira seja apropriada por todas as pessoas, como ferramenta de autonomia, consciência corporal, desafio, cuidado mútuo e construção coletiva. Em cada roda, projeto e ação, Janaína e Florencia afirmam que viver com justiça, amor e partilha não é utopia: é prática diária.
É a partir desse lugar, do território, do corpo, do afeto e da luta, que apresentamos o texto a seguir, que celebra essa união, essa travessia e essa força que segue abrindo caminhos e nutrindo vidas:
Janaina e Florencia atravessaram fronteiras para renovar votos, mas quem caminha com elas sabe: essa união é antiga, cotidiana e profundamente enraizada também no território. É uma aliança que se refaz todos os dias no cuidado, na luta, na escuta e na presença verdadeira.
Janaina e Florencia
Jana e Flor
Uma união de mulheres fortes que nos fortalecem
Meigas que nos acolhem
Humanas que ajudam na cura de muitas.
Na arte e na expressão, se aproximam de crianças e adultos.
E as mulheres estão sempre na linha de frente do cuidado e da proteção.
Flor argentina, Jana brasileira
Unem dois povos em um nessa relação
Também unem imigrantes e refugiados na rede de cuidados e atenção.
Flor e Jana são como águas de mina que caminham abrindo veios e nutrindo a terra, onde passam, com vida, memória, continuidade e ancestralidade.
Esse poema, mesmo descrevendo bem pouco quem elas são, revela o que elas provocam no mundo. Jana e Flor são mulheres-pulsação em nosso território. Aonde chegam, algo se move, se organiza, se fortalece. Há nelas uma capacidade rara de transformar afeto em ação concreta, e ação concreta em transformação social.
Com a Capoeira, Jana — Mestra Pantera — articula muito mais do que movimentos corporais. Ela constrói caminhos. Prepara crianças e mulheres para a ginga da vida, ensinando valores, postura ética, respeito, construção coletiva, participação social e cuidado com o corpo e com a saúde física, emocional e mental. Sua capoeira é território, é pertencimento, é educação popular viva, acessível e cheia de sentido.
Flor, na Milbi+, atua no fortalecimento de mulheres cis lésbicas, bissexuais, pansexuais e de pessoas transgêneras em toda a sua diversidade. Seu trabalho acolhe e enfrenta, com coragem e delicadeza, as dores e desafios que atravessam as questões migratórias, de gênero e de sexualidade. Flor cria redes onde antes havia solidão, constrói abrigo onde antes havia medo e reafirma dignidade onde tantas vezes houve exclusão.
Juntas, Jana e Flor atuam nos diversos campos da Assistência Social e dos Direitos Humanos no que essas áreas têm de mais puro e verdadeiro: o respeito profundo pelas histórias de vida, o fortalecimento de vínculos, a defesa inegociável da dignidade humana e o combate cotidiano a todas as formas de desigualdade, desrespeito e violência que atingem, sobretudo, quem já está em situação de maior vulnerabilidade.
Elas são ativas, presentes e profundamente acolhedoras. Se importam com quem está perto – amigas, amigos, companheiras de luta – e também com quem está longe, como migrantes e refugiados que chegam carregando histórias interrompidas, saudades e esperanças. Provavelmente sentiram na própria pele o que é habitar um país estranho: Jana quando viveu fora, Flor ao reconstruir a vida aqui. Mas o que as move vai muito além da experiência pessoal. É uma ética de vida. Um compromisso genuíno com o outro.
Jana criou os encontros com mulheres chamados “No Colo de Dandara”, espaços de acolhimento, cuidado e vivências profundas entre mulheres. Ali, corpos e histórias eram recebidos com respeito, escuta e afeto. E, como tudo que fazem, mesmo quando a ação nasce de uma, ela se torna das duas. Porque Jana e Flor acreditam na causa, na coletividade e na força do caminhar juntas.
Na Coletiva de Mulheres, Flor também alimenta as páginas da vida com os Batuques na Cozinha, levando aromas, cheiros, temperos e ancestralidade para as rodas construídas em mutirão. Alimenta, ainda, as páginas do Expresso Periférico com cultura, história, protesto e informação. Nesse campo, Jana costuma dizer que é “somente amiga” da Coletiva, que não é integrante, não. Ah, mana querida… você já é parte inteira, desde a raiz até o galho mais alto dessa nossa árvore da revolução.
Elas vivem aquilo que defendem. Nos envolvem em palavras e em ações. Nos convidam a acreditar que um mundo melhor é possível e nos ensinam que ele começa nos gestos pequenos, na presença constante e no amor que se transforma em prática.
Florencia e Janaina são mulheres que amamos. E desejamos, nessa renovação de votos em terras argentinas, que estejam com elas toda a paz, todo o amor e a certeza profunda de que não caminham sós. Porque o que elas constroem toca muitas vidas e segue pulsando.
Felicidade.
Imagem: Acervo pessoal de Buho

