Por Pastor Carlos Seino

Em 28 de outubro último, o Brasil foi surpreendido com a notícia da uma megaoperação da polícia militar do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha que deixou 121 mortos, sendo destes, 4 policiais (com a morte de 1 policial que estava internado, os números foram atualizados para 122, sendo 5 policiais).

O governador do Rio considerou a operação um sucesso. Na sociedade civil, pesquisas de opinião demonstraram que a maioria da população aprovou a operação policial, como por exemplo, a da AtlasIntel.

Independente da posição que se adote, a imagem dos corpos posicionados, lado a lado, demonstram que falhamos enquanto sociedade. Em lugar algum do mundo isso pode ser considerado algo normal, trivial, rotineiro. Falhamos na política, na educação, no estado de bem-estar social, na economia, na criação de boas oportunidades… Enfim, falhamos em nossa história.

A celebração da morte dos suspeitos foi um fato facilmente verificável, conforme dito, nas pesquisas de opinião, bem como nos mais variados comentários nas redes sociais, em que pese o pronunciamento do pastor e deputado Otoni de Paula, que, mesmo sendo um representante da direita, lastimou o ocorrido.

O apoio popular a operações como estas é compreensível em um país como o nosso, em que boa parte da população civil destes lugares vive aterrorizada pelas milícias e facções. As pessoas comuns, nestas localidades, não vivem um estado de direito. Como é cediço nas lições de ciência política, não existe vazio de poder. Onde falta o Estado, outro comando se organiza, muito mais próximo, duro, letal. Não significa que estejam certos em apoiarem a matança. Porém, não conseguem vislumbrar outra saída para o alívio de suas vidas, afinal, os governantes nunca lhe deram outra esperança.

Enquanto pastor evangélico em um bairro periférico em São Paulo, pergunto-me qual deveria ser a postura da igreja frente a tais casos como esses que aconteceram no Complexo do Alemão. Deve a Igreja, e nós, enquanto cristãos, celebrarmos a morte, a matança de seres humanos, sejam quais forem?

Definitivamente, entendo que não, e há diversos motivos para isso.

A mensagem da igreja é uma mensagem de arrependimento para a vida, e isso está expresso tanto nas páginas do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento.

Por exemplo, o profeta Ezequiel ensina qual é o sentimento do próprio Deus em relação aos que praticam o mal:

Diga-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos! Por que haveriam de morrer, ó casa de Israel (Ezequiel 33.11, grifo nosso).

Ou seja, se nas Escrituras constam que o próprio Deus não tem prazer na morte do ímpio, por que os cristãos deveriam ter? Assim também, por piores que possam ter sidos os atos de um ser humano, a esperança cristã se expressa no sentido de que tal pessoa deveria se arrepender, e caso não o faça, caso sofra as consequências de seus atos, isso não é um fato para comemoração, mas sim de lamento, pois era alguém também feito à imagem e semelhança de Deus.

As páginas do Novo Testamento trazem igual ensinamento. Quando o apóstolo Paulo escreve para o seu discípulo Timóteo, assim exorta e ensina:

Orem em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade, para que vivamos vida mansa e tranquila, com toda a piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso salvador, que deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2.2-4, grifo nosso).

Então, este é o foco de toda a missão cristã. Os cristãos não devem se contaminar com sentimento de vingança, nem desejar a morte violenta de ninguém. A maior inspiração (e, na verdade, a única) para os cristãos é o ensinamento e a vida do próprio Jesus, que em um dos seus mais contundentes sermões, ensinou:

Vocês ouviram o que foi dito: Ame ao seu próximo e odeie o seu inimigo. Eu, porém, lhes digo: amem seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, para demonstrar que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus. Porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se vocês amam aqueles que os amam, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? (Mateus 5.43-46, grifo nosso).

A marca maior, a característica mais sublime, de todo aquele que diz ser seguidor de Jesus deve ser o amor, o amor a todas as pessoas, mesmo aos maus.  Isso está completamente de acordo com a teologia cristã, que sustenta que Deus sustentou seu amor para conosco “pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5.8b).

Então, não há para onde se olhe na vida de Jesus e dos apóstolos algo parecido com um discurso punitivista, vingativo, que deseje a morte violenta das pessoas.

Assim sendo, concluo sustentando que a missão da igreja é ser misericordiosa, é ensinar, é salvar. A igreja cresceu nas periferias alertando os jovens a não seguirem um mau caminho, a amarem suas famílias, a deixarem as armas, a violência, e toda sorte de males. Quando foi preciso, as igrejas apoiaram inclusive as famílias daqueles que estavam presos. E, muito importante também, as igrejas sérias jamais aceitaram dinheiro do tráfico de drogas, nem das facções, por isso, eram muito respeitadas pelos próprios traficantes, conforme você poderá confirmar ao assistir às interessantes experiências narradas pela pesquisadora e também pastora Viviane Costa, autora do livro “Traficantes Evangélicos”, no canal Inteligência Ltda. Foi possível ver no complexo do Alemão, após as mortes, evangélicos e católicos amparando os familiares e amigos das pessoas mortas. Esse é o papel da Igreja.