Por Eurico Pereira de Souza
A data formal da Independência do Brasil e diferentes temas a ela relacionados, não é algo que chama muito a atenção do pensamento de esquerda e, até mesmo entre os movimentos progressistas e humanistas. Aqui, neste Expresso Periférico, dois ou três anos atrás, um interessante texto escrito por Juarez, Mauro e Agnaldo, buscava uma reflexão sobre o tema, projetando sobre o mesmo, reflexões próprias sustentadas por valores de esquerda. Esta escolha foi importante, pois tinha, como pano de fundo, partir de um tema nacional, e revesti-lo de uma leitura crítica e receptiva com base nos valores esquerdistas, progressistas e humanistas. O tema, pelo que vem a memória, versava sobre a pergunta ao leitor, algo como “Qual é a sua independência?”, e assim, iniciava a exposição crítica dos referidos autores.
De certa maneira, pretende-se aqui, prosseguir tal reflexão, acrescentando outros elementos. Antecipadamente, se posiciona que, em decorrência do caráter desse veículo, há que ser breve no esclarecimento de um conjunto de ideias e conceitos – nem sempre fáceis -, cuja finalidade, em linha geral, é ser o mais didático possível.
A pergunta sobre a independência das pessoas, ou propriamente, se o cidadão, no seu dia a dia, amealhado pelas engrenagens do sistema capitalista, sente-se indivíduo independente, aparece no âmbito da filosofia ou ciência política sob o tema da liberdade. Com outras palavras, ser independente significa viver sem obstáculos às suas ações, e tal vivência, desobstruída de impedimentos, significa que o indivíduo é livre (BERLIN, 2002). Esta forma de pensar a liberdade – hegemônica em nossos dias – tem sua origem no pensamento liberal, cuja doutrina, estruturando defesa da liberdade dos indivíduos diante dos abusos do poder, no período dos Estados absolutistas, fez emergir as possibilidades de construção de mecanismos constitucionais que protegessem estas mesmas liberdades (BOBBIO, 1993) e isto se configurou posteriormente em um conjunto de valores sob a inscrição do que se conheceu por “liberdades individuais”. Logo, se construirá, ao longo do tempo, uma identificação entre o Liberalismo e a ideia de direitos individuais.
Esta elaboração serviu para justificar – avançando para uma defesa puramente ideológica – a tese de que somente o pensamento liberal tinha compromisso com as liberdades fundamentais dos indivíduos. No subtexto dessa tese, seus autores liberais buscam professar: nem o socialismo, nem a democracia, enquanto forma de governo, têm o compromisso tão profundo as liberdades das pessoas. Porém, do ponto de vista historiográfico, tal tese não se sustenta, ou ao menos, há outras elaborações que desenvolveram abordagem contrária. Este é o caso do estudioso Quentin Skinner que, ao direcionar suas pesquisas para as instituições jurídicas de Roma, quando era uma república, e ao revisitar a obra de Maquiavel sobre esta mesma Roma republicana, verificará ali, concepções e práticas que, segundo ele, guardavam valores em defesa da liberdade das pessoas. Por isto, sua obra que trata desta questão se intitula, “Liberdade antes do Liberalismo” (SKINNER, 1999). Isto significa que a defesa das liberdades do indivíduo não é uma propriedade do pensamento liberal como quer nos convencer seus ideólogos. Antes mesmo do Liberalismo como concepção política existir, já havia elaborações com atenção às liberdades individuais.
Para as abordagens teóricas fundada nos valores de esquerda, a concepção de liberdade professada pelo liberalismo é insustentável teoricamente e socialmente. É algo como uma ilusão, ou uma falsidade, pois não existe na realidade. Antes de avançar, é preciso resgatá-la. Isaiah Berlin, historiador das ideias, interpretando diferentes concepções liberais, definiu a ideia de liberdade desta corrente política em termos do que ele denominou como “Liberdade negativa”, e tal elaboração (desde 1958), adquiriu status de referência obrigatória para os defensores do liberalismo. Sendo breve, uma passagem do texto desse autor, indica traços dessa conceituação de liberdade.
A liberdade política neste sentido é simplesmente a área na qual um homem pode agir sem ser obstruído por outros. Se outros me impedem de fazer o que do contrário poderia fazer, não sou nessa medida livre; e, se essa área é restringida por outros homens além de um certo valor mínimo, posso ser descrito como coagido ou, talvez, escravizado (BERLIN, I. Dois Conceitos de Liberdade. In Estudos sobre a Humanidade: uma antologia de ensaios. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 229).
Como afirmado acima, tal definição sobre o que é liberdade concebe o indivíduo com um viver sem obstáculos às suas ações, e tal vivência, desobstruída de impedimentos, significa que o indivíduo é livre. Tal concepção será chamada também de “Liberdade como não impedimento”, ou, “Liberdade como não-interferência”. Assim, para a visão liberal e a sua atualização, o neoliberalismo, a liberdade é uma propriedade do indivíduo e, por isto, a única finalidade das instituições jurídico-políticas (instituições estatais) seria mediar o conflito entre os indivíduos quando a liberdade de um, interfere na liberdade do outro. Por consequência, tal visão de mundo concebe a liberdade como algo que somente pode ser usufruída pelo individuo contra outro, ou seja, gozar da liberdade só é possível na ausência de outros que possam usufrui-la também. É tal valor que fundamenta, nestas duas concepções, as ideias de competição, concorrência entre os agentes, e a sociedade como verdadeira arena de guerra onde cada indivíduo disputa com o outro sua busca de realização, devido a ideia de autointeresse. Porém, como já assinalado anteriormente, para as concepções de esquerda, tal abordagem teórica sobre a natureza da liberdade é falha. Isto por três motivos.
Primeiramente, tal concepção parte da ideia de que o indivíduo concebe sua liberdade como uma faixa em que ninguém (outros membros da sociedade, organizações, instituições jurídicas-políticas) deve interferir. Assim, o que move tal individuo no mundo é o autointeresse. Em síntese, o mundo seria povoado de agentes por natureza egoístas, cuja realização de seus objetivos, depende dessa faixa livre para agir. Ora, para diferentes concepções da sociedade, há inúmeros fatos, e situações na história, em que não é o autointeresse que move as ações das pessoas. Fenômenos como solidariedade, lealdade familiar, lealdade grupal, lealdade a princípios, atividades comunitárias etc., depõem contra o autointeresse como motor central do agir.
Segundo, para esta concepção de liberdade, a sociedade – com cada um defendendo sua faixa de liberdade para, assim, realizar seus interesses – é definida como conjunto de indivíduos dispersos, sem vínculos, ou com vínculos frágeis, ou seja, a sociedade é algo de natureza fraca ou inexistente, pois o que se encontra é o indivíduo solto das relações sociais devido a sua natureza egóica. Com dizia, nos anos 80, na defesa desse espírito, a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher (1925-2013), professando a mentalidade neoliberal: “não existe este negócio chamado sociedade”. Mas, o que depõe contra tal posicionamento é o fato de que as relações sociais são fenômenos objetivos que demonstram vínculos entre os indivíduos. Por exemplo, a existência das leis, ou das normas jurídicas em sociedade, não é somente para disciplinar os conflitos entre os indivíduos; é também para garantir direitos para todos. É por isto que a lei é de natureza vinculante: a lei existe para se referir a todos, e não surge para corrigir um indivíduo. Logo, a natureza da lei é um fenômeno de ordem social, e não individual.
E terceiro, é que para o pensamento social de esquerda, a forma do projeto liberal conceber o mundo povoado de seres individuais focados somente em seu autointeresse é errado por propositalmente descartar um valor de natureza vinculante socialmente e, moralmente: a igualdade. Nas diferentes concepções que povoam o pensamento de esquerda, o usufruto das liberdades, como, a vida, a segurança, felicidade e, aos bens sociais, como saúde, educação, moradia, somente se realiza se tais bens são primeiramente estendidos a todos. Assim, nesta perspectiva, a liberdade e igualdade são vinculadas, sendo que a realização da segunda é condição para efetivação da primeira.
Feitas estas considerações, fica compreensível porque o sentimento de independência pessoal tem a ver com a ideia de liberdade. Sente-se uma certa independência se conseguir desfrutar de direitos. Sendo os direitos negados, o agente não é independente pois está exposto às vulnerabilidades, logo, a liberdade é restrita ou, inexistente. E é neste sentido, que o tema da independência que, por extensão, é o da liberdade, pode ser incorporado ao pensamento de esquerda. Philip Petit, autor de “Republicanismo” (1999), estudioso da visão republicana do pensamento de Nicolau Maquiavel, e da experiência republicana resultante da revolução inglesa, afirma uma concepção de liberdade neste registro.
“Em meados da década de 1980, eu ainda morava na Austrália, comecei a pensar que se poderia conceituar a liberdade política como um status ao qual se tem acesso apenas na relação com os outros e não como uma condição de que pudéssemos aproveitar na ausência de outros (Ver LE GOFF, Alice. Entretien avec Philip Pettit. Raisons Politiques, Paris, v.3, n.43 p.177-192, août, 2011.)”.
Pettit (1999) não está entre os estudiosos do republicanismo de Maquiavel como o mais fecundo no sentido de defesa consistente de ampla atuação dos cidadãos (e as consequência disto) na cena pública. Em nossas paragens, o professor e estudioso de Maquiavel, Newton Bignotto (autor de Maquiavel Republicano, 1991), e Sergio Cardoso (autor de Maquiavelianas, 2022), desenvolvem elaborações mais abertas e compromissadas com a defesa de um ambiente expandido da experiência democrática e, receptivo da ideia de que a ampliação de direitos requer admitir o conflito como algo inerente às próprias práticas da luta política. Entretanto, Pettit (1999) pontua bem o valor da liberdade como realizável se somente for estendido a todos os indivíduos. Logo, nega, neste quesito, a visão liberal de que o indivíduo somente é livre desde que não se preocupe com os outros. Em Pettit, o valor da liberdade se aproxima da necessidade da igualdade.
O sentimento de independência que, como valor, as pessoas devem viver, é relevante para o pensamento de esquerda porque múltiplas situações de vulnerabilidade somente denunciam o quanto as pessoas, no sistema capitalista, estão expostas a dependência dos outros, no sentido de serem dominadas pelos outros. O anteparo para tal realidade social é o que os movimentos sociais, progressistas, humanistas e de esquerda, sempre buscam no regime democrático: lutando pelo seu alargamento, visam a ampliação e aplicação dos direitos sociais e políticos, e o estabelecimento de garantias que se efetivam pelo aumento das políticas públicas de proteção social. Logo, na ausência dos direitos sociais, políticos, e na inexistência de políticas públicas que visam manter as garantias, as pessoas, mesmo na democracia mais alargada ou burguesa, ficam expostas a dependência de outros que as podem dominar e, assim, ficam indefesas. Neste espírito algumas observações – inspiradas em Pettit (1999) – assinalam o quanto de vulnerabilidade acompanham as pessoas, e por isto, a necessária presença do Estado (recusada pelo liberalismo e neoliberalismo) com instituições de proteção se configura como relevante.
Em uma sociedade em que as pessoas não têm a rede de proteção social, aquele que domina age como senhor, e por isto, projeta certas inseguranças que podem aparecer em ambientes sociais, tais como, na relação esposa e esposo (lembramos hoje o índice de feminicídio), trabalhadores e patrão (considera-se além da exploração econômica, o assédio moral), preso e carcereiro (reflita sobre o inferno do sistema carcerário, de alta supressão de diretos e de parte de presos reais sem julgamentos), etc. Aquele que sofre a interferência alheia, vive, permanentemente, na incerteza de não saber o seu estado ou sua condição no momento seguinte. Se de um lado, ele já tem suas escolhas intencionalmente obstruídas, por outro, vive o mal-estar como algo a mais que o impossibilita prever como agir adiante. Esta impossibilidade de prever suas próprias ações é proveniente do fato de não saber quando haverá a interferência por parte daquele que literalmente o domina. Acrescenta-se: mesmo que o domínio, em um momento, não ocorra, o estado do agente que a sofre é de profunda incerteza provocada pela mera situação de que há um agente alheio que pode interferir a qualquer momento. As pessoas vulnerabilizadas vivem então a ansiedade constante que acompanha suas expectativas, e tal situação as coloca na incapacidade de planejar qualquer de suas ações.
Portanto, ser obrigado a cultivar um modo de vida em que se vive de forma permanente a insegurança, incerteza e ansiedade, denota o quanto a pessoa não é independente, pois está exposta ao domínio do outro, sendo este, na sociedade desigual brasileira, a polícia, o patrão, as instituições jurídicas injustas, as organizações empresariais. Não surpreende, que o prof. Wladimir Safatle, no programa Entrevistas, na TVT, em depoimento ao jornalista Juca Kfoury, – em 25/07/2025 – fez referência ao objeto de estudo de um curso por ele desenvolvido: “As consequências psicossociais de sofrimento impostas pelo neoliberalismo”. A questão central é que sobre estas fragilidades impostas aos indivíduos pela sociedade capitalista, a noção de liberdade professada pelo liberalismo e neoliberalismo não oferece qualquer anteparo de proteção social. Por defender que o que individuo preza é o autointeresse, dirá o liberalismo e neoliberalismo que os sofrimentos são resultados das próprias escolhas individuais. Em poucas palavras, o indivíduo é resultado pelo seu fracasso, e a liberdade em defesa do cidadão, professada por estas ideologias, é precária.
As três manifestações de sofrimento, acima descritas, podem ser encontradas conjuntamente em situações concretas. O jovem negro ou branco das periferias do Brasil, que andando em sua comunidade, se estiver a pé, com bicicleta ou com moto, indo para o trabalho, ou escola, ou qualquer lugar, em uma semana sofre várias batidas de policiais. Diante da ansiedade, incerteza e insegurança do que pode acontecer, muitos criam estratégias de sobrevivência, assinalando, desse modo, o quanto estão vulneráveis nesta sociedade desigual e racista.
Outra situação. Em obra escrita, em 1955, baseada em pesquisa qualitativa solicitada pela Unesco, Roger Bastide e Florestan Fernandes (este ainda não na sua fase marxista, mas funcionalista), escreveram o clássico “Brancos e Negros em São Paulo”. O resultado da pesquisa foi a confirmação de que o estado de São Paulo é racista para o desânimo da agência da ONU que partilhava a ilusão da existência de democracia racial no Brasil. Em uma passagem sobre os casamentos inter-raciais no interior do estado, há o seguinte relato sobre uma entrevista
A concorrência sexual também desempenha o seu papel aqui, e o grupo preto junta os seus protestos aos do grupo branco. Mas essa oposição não se limita ao domínio do “falatório” e da maledicência; família e vizinhos juntam-se para tentar destruir a união dos esposos: “Você não tem vergonha, bonita como é, de ter casado com um preto? No começo, eles são bonzinhos mas todos são brutos. Você vai ver mais tarde.” Não é raro ver que essas conversas, repetidas incessantemente, acabam por provocar a separação dos cônjuges. Ou então o casal retira-se para solidão, sem frequentar nem o grupo preto nem o grupo branco; e, se a afeição mútua pode ajudar a suportar esse isolamento, nem por isso a situação deixa de ser trágica. Quando as diferenças de nível, educação ou mentalidade são demasiado grandes, o casamento termina mal. (BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. São Paulo: Global, 2008, p.187-188).
Outra situação é lembrada pela vida pessoal deste que escreve. Com sua família vindo do Nordeste para São Paulo, no início dos anos 60, por mais de vinte anos, os pais tiveram que pagar aluguel em vista de garantir um mínimo de moradia digna. Por todos estes anos, os últimos dias do fim de cada mês era uma correria para conseguir obter o dinheiro para tal pagamento. Buscava-se fazer de tudo: pegar empréstimo, recorrer a amigos e parentes, vender qualquer coisa. Havia uma extração de energia emocional e psíquica intensa. Vivia-se, todo o fim de mês, o medo, a insegurança, a incerteza sobre o futuro próximo, e a alta ansiedade que levava o sofrimento todos os membros da família. Ora, isto é uma vida sem garantias, sem independência e, portanto, uma vida dominada. Uma família, nestas condições, não tem como planejar-se para o futuro, e por isto, seu horizonte de esperança fica encurtado.
Os registros acima citados somente mostram o quanto é importante a militância dos movimentos sociais em defesa de uma política de segurança pública que não mate nossos jovens, que denuncie todas as formas de racismos, e defenda a ampliação de programas de moradias para a classe trabalhadora. Com outras palavras, quando existe políticas públicas de moradia focados para os trabalhadores, quando se cobra serviços de segurança pública em defesa da vida – e não da morte -, e de programas e políticas para vigilância e supressão dos racismos, um modo de vida com mais previsibilidade, com menos ansiedades, e mais segurança faz os cidadãos viverem com mais esperança e ânimo, para lutar pela vida.
Pettit (1999) chama atenção que o indivíduo, exposto a vulnerabilidades, sem a rede de proteção estatal com leis e políticas públicas que lhe deem proteção, fica exposto a criar outro tipo de relação social que aprofunda mais seu sofrimento diante daquele que o domina: as atitudes de adulação em relação aos poderosos. Escreve Pettit,
Sofrer a realidade ou a expectativa da interferência arbitrária não é somente ter que suportar um alto grau de incerteza. É ter também que olhar os poderosos com rabo de olho, ter que antecipar o que eles esperam de você, para você poder agradá-los; ter que antecipar os movimentos deles para você não ver seu caminho obstruído; é você estar obrigado a todo momento à deferência e antecipação estratégica. Você nunca pode navegar despreocupado no mar atento somente aos seus assuntos; você navega em águas instáveis de perigos por todos os lados (PETTIT, 1999, p.120).
Observa-se que viver cotidianamente a possibilidade de interferência arbitrária, que é o estado de depender do outro, ser dominado pelo outro, é o indivíduo estar na condição de vigilante permanente, na esperança de que suas escolhas sofram o mínimo possível de impedimentos. Segundo Pettit (1999), para isto, o indivíduo sempre será obrigado a estar atento às ações dos poderosos, projetando como eles irão agir e, assim, antecipar o quanto e até onde, tal ação, interferirá em suas escolhas. Tal contexto social, exige do indivíduo um alto custo de ordem emocional e de incertezas para garantir um mínimo de escolhas. Como a convivência entre o poderoso e o indivíduo que sofre a interferência é continua, a possibilidade deste inibir um pouco a interferência é via a adulação, o congraçamento, novamente na esperança de que a dominação seja mais suportável. Na História do Brasil, esta adulação, ou o seu semelhante, que é a relação social baseada no favor, se realizou nos vínculos entre o Senhor de Engenho e seus escravos; na relação dos fazendeiros com seus jagunços, como bem observado em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; na relação entre fazendeiros, chamado, de “Coronéis”, e seus currais eleitorais.
Este sentimento de ter que adular o poderoso como condição para ter uma vida mais suportável, ou até acreditar que, assim, poderá ascender socialmente, somente assinala o quanto o cidadão exposto a este desejo vive e aprofunda a sua vulnerabilidade. Carlos Drummond de Andrade, em crônica irônica, denominada “Será ministro”, traça as atitudes de adulação que Tonzinho, um servente do gabinete do Ministro de Estado, cultiva, para que este venha ser padrinho de seu filho. A esperança é que o filho, apadrinhado pelo Ministro, terá garantido o sucesso na vida. O contexto ficcional é por volta dos anos 50. Tonzinho registra no cartório o nome de seu filho: “Ministro”. E depois, realmente, como pensou, o Ministro se tornou seu compadre. Evidentemente, a conclusão da crônica não termina bem, nem para o jovem “Ministro” e, nem, para seu pai Tonzinho. Diante dos insucessos do filho, este conclui:
“- Ora, me filho, hoje no bueiro, amanhã no Pão de Açúcar. E você não tem de que se queixar. Num momento em que tanta gente importante sua a camisa para ser Ministro, e fica olhando pro céu par ver se baixa um signo do astral, você já é, você sempre foi Ministro, de nascença! De direito! E não depende de governo nenhum pra continuar a ser, até a morte! Abraçaram-se chorando.” (ANDRADE, C. Drummond de. Serás ministro. In Para Gostar de Ler: crônicas. São Paulo: Ática, 1979, p. 57-60).
Um registro claro de recusa de congraçamento com os poderosos, e assim a tentativa de, mesmo nas condições adversas, lutar contra a dependência, é exposta por James Baldwin (1924-1987). Escritor negro, já reconhecido como grande intelectual público, conferencista, romancista, e militante dos diretos civis, Baldwin, tem parte de sua vida apresentada no documentário “Eu não sou o seu negro” de 2017, dirigido por Raoul Peck. Neste, o contexto de uma entrevista em 1968, no programa The Dick Cavet Show, indica muito bem o posicionamento assertivo contra qualquer adulação. No programa, Baldwin já está respondendo perguntas há um tempo. Em seguida, é chamado para debater com ele, o Prof. Paul Weiss, do curso de Filosofia da Universidade de Yale. Weiss, senhor branco já de idade avançada, coloca a seguinte questão sobre os posicionamentos de Baldwin acerca do racismo nos EUA:
– Toda essa ênfase no negro e no branco enfatiza algo que está aqui [nos EUA], mas enfatiza e talvez exagere. Portanto nos faz reunir pessoas em grupos nos quais não deveriam estar. Eu tenho mais em comum com um negro erudito do que com um branco que é contra a erudição. E você [apontando para Baldwin], tem mais em comum com um escritor branco do que com alguém que é contra toda a literatura. Então, por que devemos sempre nos concentrar na cor? Ou religião? Ou aquilo? Existem outras maneiras de conectar os homens!!
– Vou dizer o seguinte [inicia Baldwin em sua resposta]: quando sai desse país em 1948, eu fui embora por uma única razão…Não importava aonde eu iria. Eu poderia ter ido para Hong Kong, Timbuktu, mas fui para Paris, nas ruas de Paris, com 40 dólares no bolso, e a teoria de que nada pior poderia acontecer comigo lá, do que já tinha acontecido comigo aqui. Se você quer sobreviver como escritor, você tem que ser capaz de desligar as antenas que usa para viver, porque se você virar as costas para esta sociedade, você pode morrer. E é muito difícil pegar a máquina de escrever e se concentrar nisto se você tem medo do mundo ao seu redor. Os anos que vivi em Paris, fizeram uma coisa por mim: eles me libertaram desse terror social, que não era paranoia minha, mas um verdadeiro perigo social visível no rosto de todos os policiais, de todos os patrões, de todo mundo. Eu não sei o que a maioria dos brancos neste país sentem. Mas só posso concluir o que eles sentem pelo estado de suas instituições. Eu não sei se os cristãos brancos odeiam os negros, ou não, mas sei que temos uma igreja cristã que é branca, e uma igreja cristã que é negra. Como disse Malcon X, a hora mais segregada dos EUA é o meio dia do domingo! Isto me diz muito sobre uma nação cristã. Significa que não posso confiar na maioria dos cristãos brancos, nem na igreja cristã. Não sei se os sindicatos e os patrões deles realmente me odeiam, isso não importa, mas eu sei que não estou no sindicato deles. Não sei se o mercado imobiliário é contra os negros, mas eles continuam me mantendo no gueto. Não sei se o Conselho de Educação odeia negros, mas conheço bem os livros que dão para meus filhos ler e as escolas que temos de ir. Agora, isto é, uma evidência!!! E o Senhor [Baldwin aponta para Weiss] espera de mim um ato de fé, arriscando a mim, minha esposa, minha irmã, meus filhos, por causa de um idealismo que o Senhor garante existir nos EUA, que eu nunca vi!!!
A importância dos movimentos sociais, a participação política nas ruas, as atividades comunitárias e as redes de solidariedade que se constroem em torno das pautas de lutas pelos direitos, aliados à obtenção, aplicação e manutenção das políticas públicas de defesa dos trabalhadores, ganha mais relevância quando se percebe, o quanto elas combatem as condições de vulnerabilidade a que estão expostos boa parte da população pobre brasileira. Obter vitórias em políticas públicas que garantam direitos e conferem proteção social aos trabalhadores e à juventude das periferias, é uma das formas que podem dirimir as inseguranças, as incertezas com relação ao futuro, a ansiedade que corrói a energia psíquica dos mais fragilizados, e as práticas de deferências, adulações, com relação aos poderosos. O horizonte do pensamento de esquerda consequente não se encerra na experiência democrática mais alargada, pois, mais longe e mais fecundo, é o socialismo. De outro modo, a luta política tem que considerar a obtenção das condições materiais de sobrevivência dos trabalhadores, os meios de proteção através dos direitos para diminuir as vulnerabilidades sociais e, para isto, deve-se conter, neste horizonte, no aqui e agora, o alargamento da experiencia democrática. Buscar proteção aos trabalhadores através da luta política, convidando-os para a militância em defesa dos direitos sociais, contribui para elevar a autoestima e, alagar no horizonte a esperança de que outro mundo melhor é possível, e está ao alcance de homens e mulheres, mesmo que a história não é feita pelos seres humanos da forma precisa que eles desejam – como dizia Marx -, mas mesmo assim, é feita por eles.

