Conferências são espaços vivos de democracia e resistência, onde a participação coletiva transforma vivências em políticas públicas — mesmo diante do silenciamento e da exclusão, as mulheres seguem construindo escuta, voz e futuro.
Em tempos de ataque às instituições, ao tecido social e à escuta coletiva, reafirmar a importância das conferências municipais, estaduais e nacionais é um gesto político. Elas não são apenas eventos formais em calendários governamentais; são trincheiras de escuta, debate e deliberação. São espaços de disputa por narrativas, pela procura de um bem viver no presente e no futuro de todas as pessoas que conformam este Brasil. São lugares onde a cidadania se faz corpo e voz, onde o encontro permite reconhecer que não estamos sozinhas em nossas lutas cotidianas e que somos muitas na construção coletiva.
Participar de uma conferência não é apenas ocupar uma cadeira ou levantar um crachá (nem apertar um botão, nesta era mais moderna). É exercer nosso direito de existir em coletivo, de propor uma sociedade mais inclusiva a partir das próprias vivências.
Na conferência municipal de políticas para as mulheres em São Paulo, realizada em julho, esse exercício de participação se traduziu em aprendizado, articulação e conquista. Mais de 250 mulheres nos reunimos sob o lema “SP por todas: mais direitos, mais cuidado, mais futuro”. Um encontro que, além de plural, foi potente. Nossas vozes, de mulheres diversas, se fizeram escutar, ainda que não sem resistência. Tendo momentos de tensão próprios da construção coletiva, mas que foram possíveis de resolver democraticamente através do diálogo e respeito de todas as presentes.
Aprendemos que nenhuma participação é solitária. Para que as nossas vozes ecoem, é preciso construir alianças, com movimentos feministas, com organizações de base, com outras mulheres que também carregam a luta no corpo e assim continuar a construção da democracia, ali, de mãos dadas.
Mas nem toda escuta é garantida. A experiência da conferência estadual de políticas para as mulheres em São Paulo, realizada virtualmente em agosto, expôs as fragilidades de uma democracia seletiva, com falhas técnicas graves, fechamento de microfones, bloqueio das falas, inconsistências nos credenciamentos e suspensão arbitrária do processo antes da votação das propostas e da escolha das delegadas, o que escancarou a decisão de parte do governo estadual de um esvaziamento da participação popular. Um silenciamento coletivo fantasiado de evento democrático.
A etapa estadual, que deveria ser o elo fortalecedor entre as propostas construídas nas bases e a articulação em nível nacional, foi marcada por uma série de entraves que ferem o espírito democrático das conferências. A imposição de um formato exclusivamente virtual escancarou desigualdades digitais e excluiu muitas mulheres de territórios periféricos e rurais, dificultando sua participação plena. Nas plenárias e salas temáticas, falas foram limitadas, microfones cortados, propostas silenciadas. Um cenário onde o direito à voz foi condicionado por tempo e controle, e não pelo desejo de transformação. A ausência de acessibilidade, a falta de critérios transparentes para a escolha de delegadas e propostas, e o apagamento da diversidade territorial no processo revelaram uma condução técnica e política que negligenciou justamente aquelas que mais lutam para serem vistas. A conferência foi, para muitas, um espelho estilhaçado de um processo que precisa urgentemente ser reconstruído com mais escuta, mais presença e mais compromisso com a democracia real.
O que deveria ser um marco de reencontro com a participação ativa das mulheres, após quase uma década sem conferências estaduais, se converteu em desilusão. Uma conferência que ignora acessibilidade, desmonta a escuta e bloqueia a fala não é conferência, é um teatro vazio. Mas as mulheres estávamos lá e não deixamos que pisoteassem nossos direitos. O repúdio veio forte: das organizações, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, do Ministério das Mulheres e, acima de tudo, das delegadas que chegamos inteiras, mesmo cansadas, prontas para defender o que é justo: políticas públicas feitas com e para o povo.
Mesmo diante do cerceamento, seguimos. Porque trazemos as práticas de nossos territórios, onde reconhecemos que cada mulher que sobe ao microfone, que ergue um cartaz, que redige uma proposta entre as urgências do cotidiano, está plantando raízes profundas numa democracia que insiste em brotar onde o concreto racha. Historicamente, onde disseram que não havia lugar para nós, criamos assembleia, espaços de cuidado da vida, de defesa de nossos direitos. Onde tentaram nos calar, fizemos coro. Onde não havia estrutura, erguemos redes.
As conferências, quando vividas com seriedade e responsabilidade, são mais do que espaços institucionais, são territórios férteis de transformação. São ferramentas coletivas que traduzem o cotidiano em política, que fazem das dores e práticas cotidianas um mapa de ação.
Esse Brasil real, que as mulheres delegadas bem conhecem, quente e urgente, não cabe em planilhas, nem em transmissões mal feitas, nem em microfones fechados. Ele pulsa no corpo de quem vive na resistência. E por isso mesmo, exige uma escuta viva, presencial, radical.
Reafirmamos: nossa participação é legítima! E se tentam nos calar, nós voltamos mais fortes. Porque democracia sem povo é só retórica. E democracia sem mulheres, sem periferia, sem escuta, sem construção coletiva, não é democracia.
Como bem sabemos: ocupar é resistir. E resistir é existir.
Imagem: Coletiva de Mulheres/Expresso Periférico
