A cultura unindo territórios
Encontros coletivos
A música foi o tema
Gente do Campo Limpo
De Iguape e Diadema
Do bairro de São Luiz
Capão Redondo em cena.
Em um dia de estação de outono, 7 de junho de 2025, período em que as flores são raras e o clima tema tendência de ser frio, ocorreu de forma calorosa, o festival de encontros musicais na Fábrica de Cultura de Diadema. Logo pela manhã, se notava o entusiasmo e uma certa tensão nas pessoas, fazendo os últimos ensaios, almejando entregar o que tinha de melhor de si, ao público que ia assistir às exposições musicais.
Nas apresentações, grande variedade de gêneros musicais, que iam de samba, chorinho, baião, coral e outros. Logo na abertura, já cantaram uma música em que sua letra destacava o instrumento musical: o berimbau e a capoeira, trazendo assim, a força do legado cultural dos povos africanos no Brasil, evidenciando, através da música, a capoeira, que foi e continua sendo um símbolo de lutas, arte e resistência contra a opressão e o racismo. Tudo estava ocorrendo conforme o programado, mas algo extraordinário ia acontecer, quando fosse cantado um grito de revolta pelos ares.
Em uma das exibições, numa sala de eventos, o espírito festivo, enaltecendo a alma da cultura brasileira, era notável. As pessoas, com seus trajes e tecidos coloridos sobre a cintura e no pescoço, ao som de pandeiro, triângulo, violão, cantavam e dançavam em círculos, atraindo os olhares e ouvidos do público. Como alguém que estivesse pegando seus fios de lã e seda para tecer bordados, puxados pela maestrina, entoaram a música: “Olé mulé rendeira, olé mulé rendá. Tu me ensina a fazê renda que te ensino a namorá”.
Com o samba pulsando nas veias, e as pessoas gingando no palco, este foi chegando de mansinho com a música: “Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho, alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho”. O balanço seguia com: “Ergue as mãos para os céus e agradeça se acaso tiver…”. Com o toque dos instrumentos, se ouvia: “Meu coração, não sei por que, bate feliz, quando te vê.”. E batendo os corações, prosseguia as harmonias, com: “pra todo mundo eu dou psiu, psiu, perguntando pro meu bem…, e andar com fé eu vou”.
Pele e cabelos
Biológico e cultural
Melanina que dá a cor
Cabelos crespo natural
Ruim é o preconceito
Do pensamento colonial.
Com a música “Olhos coloridos”, trouxe ao palanque a beleza e o brilho de gente negra e seus cabelos. Falando de um riso que não é motivo para dar risadas, ou seja: a cor da pele e os cabelos. A cor da pele resulta do pigmento da melanina presente no organismo humano e forma a cor negra. Ah, você ri dos meus cabelos, este filamento de proteínas que nasce entre os furinhos da pele da gente. Então, as risadas que não ocorrem dos dois lados, elas se tornam sem graça. Aos cabelos, são todos belos: crespos, curtos, compridos, trançados, enrolados, alisados, cacheados, afros, pintados, pretos, brancos, misturados, coloridos, cheios, naturais, raspados, trabalhados e outros, são formas de expressão, afirmação, resistência, ancestralidades, movimentos, postura política e social, memórias, celebridades, modas, artes e que cada pessoa usa como quiser.
Abrindo os caminhos
Usando a musicalidade
Gritando bem alto
Conquistando a liberdade
As guerreiras e guerreiros
Buscando a nova sociedade.
Muitas vozes alegres, artistas e público sendo saciadas e saciados pelo alimento da criação cultural, eis que algo novo ia surgir naquele auditório, quando uma um coral começou a tocar uma peça, que fez o público sentir na alma mental, como se se estivesse em perfeita harmonia com o tempo e a felicidade plena. Mas logo em seguida esta sensação foi sendo alterada, quando a mesma banda musical entoou a obra “O Canto das Três Raças”, e ao recitar: “um canto de revolta pelos ares, no quilombo dos Palmares”, tudo se transformou. O conjunto de artistas, negros, negras e indígenas travou lutas contra os senhores de engenho nas fazendas, nas senzalas e nas periferias. Os refletores reluzentes, pendurados no teto do palco, se transformaram em luas e estrelas, que iluminavam os caminhos em meio às matas escuras, para que a brava gente pudesse ir rumo aos quilombos, buscando a liberdade e uma vida nova. Subiram a Serra da Barriga e, ao chegarem a Palmares, foram acolhidos e exaltados pela coragem e façanha por conseguir se libertar da opressão.
Imagem: Acervo do autor

