Um texto de reencontro com o compromisso da escrita.  

Faz mais de um ano e meio que não produzo um texto para a coluna Mãe Invisível do Expresso Periférico. Esse espaço de escrita seguiu ativo em 2023 num debate sobre maternidade de colo vazio, possibilitando que eu cuidasse do meu luto e me afirmasse como mãe. 

Parar de escrever não foi uma decisão. Aconteceu. Em um mês eu perdi o prazo, no outro acreditei que o tema escolhido já havia sido contemplado em edições anteriores, depois classifiquei os textos seguintes como vagos. Entendi que não tinha mais nada a dizer. 

Hoje interpreto esse tempo de distanciamento de outra forma – olha o tempo sendo rei. Eu estava desejando ser outras coisas, além de mãe. Eu não queria mais falar sobre luto. E isso não significa que deixei de lembrar do meu filho durante esse período. Significa que a vida foi se ampliando em volta da dor.

Existe uma explicação que sempre aparece em rodas de luto ou em postagem de Instagram que diz assim: a dor de uma ausência não diminui com o correr dos dias, é a vida que cresce em torno da dor. Esse crescer, que acontece dentro das possibilidades de cada pessoa no seu fazer cotidiano, impede que a gente esbarre na dor com tanta frequência. Leva tempo. Nos tornamos maiores, diferentes. A dor deixa de ser quem somos e passa a ser uma parte de quem somos.  

Volto para o Expresso Periférico ainda sem muita certeza do que trarei aqui e de como, de fato, contribuirei com um grupo que é tão sólido no compromisso com a formação política e crítica da população. Mas volto com vontade de escrever. 

Se continuo odiando o Dia das Mães com força? Sim, continuo. Com um pouco menos de raiva, talvez. E o grande objetivo desse texto é abraçar e dizer “eu sinto muito” para cada pessoa que se sente inadequada ou agredida com as comemorações do segundo domingo de maio. Que seja uma data em que haja menos “tem que” e mais “eu prefiro”. Menos convenções sociais e mais acolhimento para as nossas dores. Sempre acreditando nos milagres do tempo e pedindo: Transformai as velhas formas do viver.

Referências e mais informações

“Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos”

A música Tempo Rei personifica o tempo como entidade soberana. Gilberto Gil lançou essa canção em 1984 e hoje ela é tema da sua última turnê. 

O Instituto do Luto Parental é uma instituição sem fins lucrativos que promove a humanização do luto parental. Vale conhecer as diversas formas como promovem o acolhimento de famílias e profissionais. E vale também acessar essa postagem de setembro de 2013 que traz um texto potente sobre o processo de luto. 

Imagem: Acervo pessoal da autora

2 thoughts on “Um pouco mais de mãe invisível (justamente no “mês das mães”)”
  1. Renata, queria estar ao seu lado nesse momento para poder te abraçar forte e demoradamente.
    Eu sinto muito.

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