Te explicamos por quê.

Você já teve aquele pensamento? “E se eu conseguisse ter meu próprio negócio? E se eu fosse minha própria patroa, meu próprio patrão? Largar esse emprego que me explora tanto”. Ou, caso esteja desempregada/ desempregado: “dar um jeito de ganhar um dinheirinho.” Aí você dá uma pesquisada na internet e rapidamente encontra dicas, regras e segredos que te tornarão uma pessoa bem sucedida com seu próprio negócio. Aí você passa a acreditar que é possível, do zero, alcançar grandes lucros. Acredita que, se trabalhar duro, seu negócio dará certo. Acredita que só dependerá de seu potencial. Pronto, você foi enganada/ enganado, cara leitora, caro leitor, pois foi convencida/ convencido de algo perigoso. Ter uma vida digna depende apenas de você.

Alguns jornais adoram dizer que metade dos brasileiros deseja abrir o próprio negócio, de acordo com o levantamento realizado pelo Sebrae em parceria com a Anegepe (Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo), e já se escuta da boca de alguns jovens o desprezo pela CLT. É possível compreender essa tendência diante de nossa situação atual, pós-reforma trabalhista de 2017, em que as portas da precarização e exploração foram escancaradas. Depois disso, as condições de trabalho assalariado ficaram tão ruins, que, de fato, temos a impressão de que o empreendedorismo, por mais difícil que seja, parece mais digno. Além do mais, o que pode seduzir você nesse discurso é o sonho de ser dona ou dono dos meios de produção. Agora te contaremos um segredo: essa é a luta dos partidos comunistas.

Sim, para o sistema capitalista acontecer, alguém tinha que ficar sem nada para vender sua força de trabalho. Para isso, milhares de camponeses foram retirados de suas terras e tiveram que trabalhar para aqueles que os roubaram, e isso vem se aprimorando até hoje. O que o discurso empreendedor está nos dizendo é:  “ei você que vem de gerações e gerações de explorados, monte seu negócio sem recursos e apoio financeiro e depois venha para o nosso lado, o lado daqueles que, por gerações e gerações, vêm explorando os seus”. Os comunistas e socialistas não querem tirar você da sua casa, nem expropriar o Nenê Pipas ou a padaria Santo Afonso. Eles querem expropriar os grandes bilionários e fazer com que a riqueza produzida por essas empresas estejam a serviço de todos.

  Quando as leis trabalhistas foram dilaceradas, estimulou-se a ideia empreendedora como saída, tirando da sua visão a responsabilidade do Estado em criar condições de empregabilidade digna, e até mesmo de empreendedorismo seguro. Alguém pode dizer: “Lá vem esse pessoal de esquerda dizendo que o Estado tem que dar conta de tudo!”. Esse “Alguém”, cara leitora, caro leitor, acredita que os grandes bilionários existem porque um dia tiveram ideias incríveis e você, vendendo marmita, ou com sua barbearia, hamburgueria ou salão de beleza, vai caminhar pela mesma trilha. Só que, mais uma vez, não te contam que os grandes donos de empresas são herdeiros de fortunas, como o Ellon Musk, cujos pais enriqueceram no contexto do Apartheid da África do Sul e que até hoje recebe “benefícios” do Estado para manter seu negócio. Cabe destacar também o desempenho da Apple, que até hoje utiliza do conhecimento financiado pelo Estado em universidades para desenvolver sua tecnologia. E a crise financeira de 2008 que levou muitos bancos à falência? Sabe quem contribuiu com esses grandes bilionários à beira da falência depois disso? Sim, o Estado. Interessante, né? Para os ricos, o Estado deve dar apoio, mas, aos trabalhadores, o caminho correto é “trabalhe enquanto os outros dormem”.

Esse discurso é como uma delicada mão que desvia seu queixo para uma janela por onde se vê uma mesa posta com uma suculenta refeição. O dono dessa mão sussurra em seu ouvido: “Você pode ter uma vida assim, basta se esforçar”.  Ele te faz esquecer que você nasceu do outro lado do vidro, sem nenhuma vantagem e aquela estrutura que deveria te ajudar a sobreviver nessa bagunça está do outro lado, servindo a mesa. Ele quer que você acredite que a vida é justa e que tudo dará certo.  Ele te convence a não confiar em ninguém e que tudo virá de maneira individual, mas você sente a verdade todos os dias, quando chega em casa.

Você, trabalhadora e trabalhador, sabe que depende de uma comunidade para cuidar de seus filhos e receber ânimo na vida. Você pode, talvez, não entender, mas você sente que está tudo errado e quer ser dono dos meios de produção, quer um trabalho que te humanize. Sua dignidade depende do coletivo, depende de uma estrutura social que garanta isso. Essa palavra nasce do latim “dignitas”, que vem da ideia de que algo tenha valor. Ou seja, ser digno é ter valor. Nos contentamos com o valor que nossa família nos dá, que nossa comunidade religiosa, ou não, nos dá. Dificilmente nos contentamos com o valor que nosso trabalho nos dá. Por isso a ideia de que, com o empreendedorismo, isso mudaria.

  Não estamos dizendo que você não pode ter o próprio negócio. Mas, sim, que esse pensamento é uma cilada, pois tira a responsabilidade do sistema capitalista, que é o gerador de exploração que faz com que você se sinta assim. Diariamente, o Expresso Periférico diz a você: organize-se e lute por outra realidade. Toda conquista é coletiva. A solidariedade foi quem manteve a sua comunidade viva.  Queremos uma sociedade em que os meios de produção sejam do povo e que os valores que você defende dentro de casa não sejam mera hipocrisia do portão para fora. Nesta data, trabalhadora e trabalhador, pense sobre isso e, se estiver disposta ou disposto, organize-se. Não sabe como? Pergunte-nos. Só a luta muda a vida. Viva o dia mundial da luta das trabalhadoras e trabalhadores.

Referências e mais informações

Imagem: MacDailyNews | How Elon Musk and Steve Jobs are alike (Divulgação)