Somos más americanos que todititos los gringos

No dia 8 de junho de 2025, o presidente dos EUA acionou a guarda nacional para conter manifestantes em Los Angeles. Foi a primeira vez, em 60 anos, que esse procedimento é acionado sem uma consulta ao governador do Estado que receberá a intervenção. Neste dia, pessoas manifestaram, com muito ódio, sua posição contrária à política anti-imigrantes que vem ocorrendo no país desde janeiro. Nos 100 primeiros dias de gestão Trump, em média, 600 imigrantes foram presos por dia. Cabe lembrar que essa medida foi fortemente apoiada pelos eleitores de Trump. Esses, inclusive, apoiaram o fim do programa de asilo dos EUA. O Expresso Periférico vem até você para provocar uma reflexão a respeito da nossa relação com os povos que migram.

Para começar, você já reparou como a palavra estrangeiro se parece com a palavra: estranho? Na verdade, as duas têm a mesma origem, do latim: “extraneus”, que significa: não familiar, que é de fora. O “estranhamento” é uma sensação muito comum quando estamos diante de algo novo. Isso pode estar conectado ao nosso medo de perder o controle sobre aquilo que nos cerca. Sempre que nomeamos algo, ou “sabemos” o que são as coisas, os seres e seus cotidianos e como eles funcionam, temos a ilusão de que há controle sobre aquilo porque temos conhecimento a respeito. Aquilo se torna “familiar”. Diante de algo novo, surge a necessidade imediata de nomear, de saber a respeito. Foi trabalhando com essa falta de conhecimento sobre outros povos e culturas que a ideologia conservadora alimenta o ódio a tudo o que não são “eles”. A questão, cara leitora, caro leitor, é compreender quem somos nós, e quem são esses “eles”.

Você mesmo, não tem ancestrais nordestinos ou nortistas? Você não encontra no seu bairro elementos dessas culturas? E nunca sentiu (caso não tenha nascido no Sudeste), presenciou ou ouviu relatos de preconceito contra essa população? Assim como o povo latino-americano migra para os EUA fugindo de condições precárias (fomentadas pelos EUA e países Imperialistas) e buscando o sonho americano (sonho esse criado e enfiado nas Américas pelos próprios EUA), os povos do norte e nordeste do país também se deslocaram e ainda se deslocam para o sudeste fugindo de condições precárias e buscando sonhos.  Migrar, cara leitora, caro leitor, é um direito humano. No entanto, não se criam condições de garantia desse direito. Se você tem dinheiro, é possível sair do país para conhecer aquela pilha de plástico que eles exibem para nós pela TV e celular (também chamada de Disney). Mas se você busca abrigo porque foge de uma guerra ou porque seu país sofre com problemas ambientais, aí fica mais complicado para o Mickey Mouse te receber em seu castelo. Talvez ele te esconda na cozinha e te ameace com uma denúncia à polícia de imigração caso você exija algum direito.

Assim como todo mundo quer fazer uma moeda para curtir as praias do nordeste e ser bem atendido. Não sei se esse todo mundo faz questão de receber um nordestino na cidade e defender políticas públicas que garantam dignidade a essa pessoa. Mas não, não queremos que você pense: “Nossa, como o ser humano é mau. Não tem jeito mesmo, o ser humano é egoísta”. Não acreditamos nisso. Esse pensamento há muito tempo é difundido no senso comum e ele tem conexão com o conservadorismo, culpando sempre o outro pelos problemas de sua aldeia.  E de que aldeia estamos falando?

Antes de seguir, é legal pensar em outra palavra importante: Diáspora. A professora Liliia Swchartz, inclusive, trouxe um jeito bem simples de explicar: “Grupos que saem de seu contexto e recriam suas culturas em outras sociedades.” É importante guardar essa definição e buscar mais informação a respeito da formação dos povos das Américas e também da nossa cidade. Como spoiler ao seu processo de estudo, deixaremos aqui um trecho da música “Somos Más americanos” – Los Tigres del Norte:

“Y si no miente la historia
Aquí se sentó en la gloria
La poderosa nación
Hombres guerreros valientes
Indios de dos continentes
Mezclados con español

Y si a los siglos nos vamos
Somos más americanos
Somos más americanos
Que hijo de anglosajón”

Ainda sobre aldeias, você já compreendeu que a questão não é esta, pois essa busca por um “nacionalismo puro” é falsa. A questão, mais uma vez, é a de que o racismo e a xenofobia são pilares importantes para o capitalismo. Alguém precisa limpar, cozinhar e cuidar a troco de muito pouco. O estranho deve ficar do lado de fora, de preferência lavando meu carro e cuidando do meu jardim.  Numa escala global, é possível perceber essa relação de desumanização do outro quando nos deparamos com o genocídio em Israel, seus ataques ao Irã e a presença dos Estados Unidos nisso tudo. Não pense você que é pela paz. Os EUA estão em primeiro lugar no ranking de vendas de armas e o Oriente Médio é um de seus maiores compradores. Além disso, o envolvimento do país nesses conflitos contribui para uma narrativa midiática de luta pela paz enquanto eles separam bebês imigrantes de suas mães em território norte-americano.

Diante de tamanhas atrocidades, o Expresso Periférico resgata um trecho do livro “É isto um homem”, de Primo Levi, um judeu que sobreviveu ao campo de concentração:

“Uma parte de nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós; por isso, não é humana a experiência de quem viveu dias nos quais uma pessoa foi apenas uma coisa ante os olhos de outra pessoa.”

Quem transforma pessoas em coisas e produtos é o capitalismo. O Expresso Periférico te convida a se coletivizar com pessoas que lutam contra essas atrocidades nessa terra tão fria. Mais um mês de junho passou, e a cidade mais rica do país ainda não aprendeu a dançar e cantar sua prosperidade como o povo nordestino faz nesse período.

Imagem: Por The United States Army and Navy, Desconhecido – Werner Company, Akron, Ohio, https://historical.ha.com/itm/western-expansion/cowboy/lithograph-u-s-army- cavalry-pursuing-indians-1876-ca-1899-this-werner-lithograph-of-cavalry-troops- chasing-indians-was-total-1/a/680-74171.s, Domínio público.