“O pessoal tá cansado de ver esses nego armado pra cima e pra baixo”. Foi essa a fala que um dos membros do Expresso Periférico ouviu de uma pessoa que justificava sua defesa à operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro no dia 28/10, que matou 121 pessoas. Após a fala, o indivíduo se corrigiu tentando explicar suas intenções com o termo “nego”, resgatando “o modo de dizer” como defesa. O assunto não se estendeu, estava posto o tão comum constrangimento racial de nosso país. Poderíamos gastar parágrafos e parágrafos de conteúdo histórico para mapear o problema do termo, mas dado o contexto em que foi aplicado, uma outra expressão utilizada pelos que querem parecer inteligentes já definiria a situação: Ato falho e/ou “Freud explica”. Com isso, infelizmente temos que dizer que a resposta é uma verdade, por apontar o racismo como a estrutura que sustenta o massacre e pelo desejo compreensível da população por uma solução imediata contra o crime organizado.

Uma pesquisa realizada pela AtlasIntel, divulgada no dia 31 de outubro, revela que “8 em cada 10 moradores de favelas na cidade do Rio de Janeiro apoiam a megaoperação contra o Comando Vermelho feita nos complexos da Penha e do Alemão na última terça (28)”.  As pessoas não aguentam mais e querem uma solução. Mas será que aquelas e aqueles que tiveram algum ente querido na mira da polícia, ou foram vítimas de “balas perdidas” aprovaram a ação policial? Após a operação os moradores é quem recolheram os corpos na mata para que fossem identificados em praça pública pelas famílias. Não houve apoio do Estado para isso.
A Operação tinha como objetivo cumprir 100 mandados de prisão contra membros da facção criminosa Comando Vermelho, mas apenas 20 foram cumpridos. O Estado reconhece 121 mortes, mas organizações da sociedade civil apontam mais de 130.  Os jornais classificam o ocorrido como a operação policial mais letal do país. Sabemos da urgência do combate ao crime organizado, cara leitora, caro leitor, o problema é como isso é feito.

O crime é um “negócio” e não está desvinculado do Estado e do Capitalismo. Eles caminham juntos. Enviar a polícia para pegar traficantes na favela é criar um espetáculo com objetivos eleitoreiros, porque quem realmente faz tudo aquilo existir não mora nesse lugar.  Em agosto, o Ministério Público cumpriu mandados de prisão na Faria Lima na intenção de desarticular esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo o PCC. A investigação apontava mais de 7 bilhões de reais em sonegação. Cabe lembrar, também, que a maior apreensão de fuzis já feita na história do país foi no condomínio Vivendas da Barra, na casa do assassino de Marielle Franco, Ronnie Lessa. 117 fuzis M16 ainda desmontados e novos, prontos para serem encaminhados à linha de frente do crime.  Não, esse condomínio não fica na periferia e, aliás, contava com outra figura ilustre como morador. Você deve se lembrar. 

Estudos mostram que os maiores fornecedores de armas para o crime organizado é o próprio Estado, com o desvio feito por policiais, e países como Israel, de acordo com o relatório da CPI do tráfico de armas. Enviar a polícia para matar jovens na favela é, na realidade, enviar um homem negro para matar outro homem negro, enquanto a elite, dona de todo o arsenal, brinda com sangue os resultados estratégicos para conquista de poder. O Expresso Periférico vem te alertar sobre essa cilada: O menino preto armado em cima de uma moto não é a raiz do mal, ele é o plano já concluído do verdadeiro vilão. Esse jovem é peça descartável que fica na margem desse grande negócio. Quando um deles morre, dezenas de outros surgem para nutrir o ódio racial no país, banalizando a violência contra nossos filhos e estigmatizando o corpo periférico como ameaça. O que os donos dessa rede que alimenta o crime organizado mais querem é justamente que você não aguente mais “ver esses negros armados” ameaçando sua paz. Se você defende o combate ao crime organizado, exija que os verdadeiros responsáveis paguem pelos crimes, assim a arma e a droga não chegarão na favela.

Referências e mais informações

  • Pesquisa: 8 em cada 10 moradores de favelas no Rio aprovam megaoperação [CNN Brasil]
  • Segundo relatório Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006, divulgado em 2009 pelo Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 2009, 505 mortos foram civis e 59, eram agentes públicos. Conforme o estudo, há indícios de participação de policiais em 122 execuções. [Agência Brasil]
  • 117 fuzis M16, condomínio Vivendas da Barra. do policial militar Ronnie Lessa no Méier (assassino de Marielle Franco). [G1]
  • Maioria das armas do crime vem do Estado, Israel e Bélgica [CNN Brasil]
  • Estudo com policiais indica racismo na PM [Folha de S. Paulo]
  • A análise inédita de mais de 150 mil armas levou esta Comissão a revelações surpreendentes, e gravíssimas, como a denúncia de que a maioria esmagadora das armas apreendidas com a bandidagem foi originalmente vendida pelas fábricas brasileiras a lojas estabelecidas, e para o próprio Estado, principalmente para suas polícias, e daí foram desviadas para o crime”, diz o relatório de Paulo Pimenta. [Senado]
  • Maioria dos policiais do RJ são Negros. [WIKIFAVELAS]
  • PCC e Faria Lima: imagens da operação que chegou ao centro financeiro de SP [CNN Brasil]