Essa é uma pergunta feita diariamente pela maioria das pessoas e tem causado grandes aflições aos mais pobres. Há muitas opiniões sobre suas causas e poucas ações para sua resolução. Vamos tentar aqui neste espaço colocar alguns pontos que podem nos ajudar a compreender esse problema.
Inicialmente, é preciso reconhecer que está havendo um aumento constante do preço dos alimentos e isso causa aumento da inflação e insegurança alimentar.
Muitos falam dos problemas causados pelo agravamento da crise climática; isso é um fato. Aqui no Brasil, no ano passado, tivemos o quadro de chuvas e alagamento no Rio Grande do Sul e, no Centro-Oeste, o problema de incêndios em matas, pastos e plantações. Mesmo aqui em São Paulo, tivemos queda de produção de café e laranja com as secas. Isso também ocorreu lá fora, de onde importamos muitos produtos. Porém, isso não explica tudo.
No passado, antes do governo Bolsonaro, havia uma política de estoque regulador via CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento; esse programa visa adquirir grãos para estocagem para abastecer o mercado quando da falta de produtos ou de elevação de preço. Esse programa foi desmantelado no governo passado.
O que torna mais grave esses problemas com a alta dos preços é que muitos produtos são exportados e têm seu preço fixado no mercado internacional, e em dólares, conhecidos como commodities. Carnes, café, grãos (como sorgo, milho, soja e outros). O Brasil é um dos maiores exportadores desses produtos via o chamado “agronegócio” (lembra da propagando de que o agro é pop?). Muitas vezes é preferível vender lá fora e receber em dólares, do que vender no mercado interno e receber em reais. Então, a produção é desviada para o mercado externo, favorecendo um pequeno grupo de produtores.
Outro agravante é que há uma bolsa de valores específica para esse tipo de produção: a Bolsa de Mercadorias, onde além de fixar os valores em moedas estrangeiras, são feitas grandes transações de compra e venda no “mercado futuro” em que especuladores atuam definindo preços e produtos que devem subir ou cair ao longo do tempo. Favorecendo um pequeno grupo de especuladores.
Esses dois últimos tópicos refletem como o Mercado atua e dirige a política de produção e preços. O que é mais grave nessa história é que o agronegócio recebe verbas subsidiadas do governo; são empréstimos de baixo custo para plantio, colheita, compra de equipamentos, fertilizantes e agrotóxicos (pesticidas), que em muitos países são proibidos por fazerem mal à saúde e, aqui no Brasil, são utilizados em larga escala pelo agronegócio. É triste quando vemos produtos sendo jogados fora, ficarem escondidas em galpões esperando e especulando uma alta de preços ou deixando de ser colhidos, como vemos na TV e mídias sociais, porque seu preço não atende à expectativa dos produtores.
Algumas ações começaram a ser feitas de dois anos para cá como a retomada da política nacional de abastecimento com recuperação de silos de armazenagem, 27 dos 91 existentes antes de Bolsonaro, bem como reestruturação financeira da CONAB, que tinha um orçamento de R$ 2 milhões no final do governo anterior e agora para 2025 são R$ 70 milhões. Outra frente tem como objetivo a recuperação de crédito de pequenos produtores com programas de subsídio de suas dívidas com a finalidade de manter e ampliar sua produção. No ano passado, foi aprovada, dentro da reforma tributária, a isenção de impostos federais nos produtos da cesta básica. Infelizmente, os Estados não acompanharam essa isenção e continuam tributando esses produtos, além do fato de aumentarem os impostos dos combustíveis via ICMS, que acabam elevando a inflação e o preço dos alimentos. Uma das ações de curto prazo é a isenção de impostos na importação de alguns produtos, como café, carnes, azeites e massas.
Quem realmente coloca comida na mesa são os pequenos produtores e a agricultura familiar. São os produtos que você compra nas feiras e quitandas, normalmente sem agrotóxicos, e são os que menos recebem subsídio para sua produção, com valores infinitamente menores do que o agronegócio. Além de não desmatarem grandes áreas e poluírem nossos rios com agrotóxicos pesados.
Não é uma tarefa fácil. Promover alterações na estrutura fundiária do Brasil, bem como na distribuição dos recursos, tudo passa pelo crivo do Congresso Nacional, que tem uma bancada muito forte ligada ao latifúndio e agronegócio, além da bancada dos bancos. Enfim, a ampla maioria do nosso Poder Legislativo. Cabe lembrar que a bancada ligada à agricultura, liderada pelo PL, votou contra a isenção de impostos para os produtos da cesta básica.
Agora estamos passando pelo aumento significativo do preço dos ovos, tudo porque há uma crise nos Estados Unidos com a gripe aviária que fez despencar a produção de ovos e jogar seus preços nas alturas. Segundo uma matéria da TV, o preço da dúzia em Nova York chegou a mais de R$ 80,00. Mais uma vez, arcamos com as consequências aqui no Brasil com a especulação dos ovos com R$ 40,00 a cartela. E, o pior, é que esse preço deve se manter por mais alguns meses.
Portanto, sem uma Reforma Agrária, ampliando terras para que a agricultura familiar e pequenos produtores aumentem a produção de alimentos, continuaremos a trocar o almoço pela janta.
Imagem: Bruno O.