A periferia não lutou contra a ditadura?

Você já deve ter conhecido alguém que é pobre e trabalhador, nascido e criado na periferia, que tenha vivido no período mais difícil da ditadura militar e que ainda assim tenha passado por isso sem perceber a existência do golpe e da perseguição e repressão do governo. Como isso foi possível? Será que o golpe militar só atingiu a classe média branca e seus filhos universitários? A periferia ficou alheia a tudo isso, por isso não sentiu o impacto?

Dentre os tantos corpos que compõem o Expresso, um deles carrega consigo o depoimento de um homem negro, hoje na faixa de uns 70 anos, morador de periferia. Esse narrou que, certa vez, quando tinha 12 anos, foi dar um recado a um membro da família em um bar. No local, alguns homens jogavam sinuca e um desses pediu para que ele segurasse o taco por algum momento. Nessa hora, alguns policiais entraram no bar e viram o então garoto com o taco na mão. Eles o levaram, colocaram no camburão e o deixaram ali por horas, enquanto faziam a ronda pelo bairro. A família e alguns membros da comunidade é que conseguiram localizá-lo depois de muito barulho e busca. No final do relato esse homem negro negou que no seu tempo existisse racismo e perseguição policial, alegando que tudo aquilo havia acontecido porque sinuca era um jogo proibido na época. 

Na verdade, cara leitora e caro leitor, as periferias do país foram as que mais sofreram com esse período. No entanto, como a perseguição e repressão policial já são uma marca histórica nessas regiões, para muitos trabalhadores os cuidados ao caminhar pelas ruas eram os mesmos, ainda que a polícia militar tenha ganhado mais força de letalidade e os esquadrões da morte tenham surgido de forma mais organizada. 

O fato é que carregamos uma herança histórica de violência sobre nós desde o período da abolição. Para muitos, a vida cotidiana sempre teve o amargor do medo. Um amargor que, por mais samba que se faça, nunca se diluiu em álcool e saliva. Sendo assim, por não sabermos o que é viver sem esse gosto, muitas vezes sequer sabemos que isso ainda tempera nosso cotidiano. 

A ditadura militar acabou quando essa repressão parou de atingir a classe média, acabou quando esse grupo pode dizer o que pensa e fazer seus lindos filmes. Mas nas ruas da Cidade Ademar o medo ainda segue vivo. Ou você não se preocupa com seu filho quando ele sai com os amigos à noite? Por que será que você o educou a sair sempre com o RG, mesmo que fosse até a padaria? Por que você não se sente protegida ou protegido com a viatura que passa apagada na sua rua? Há quanto tempo você se sente no meio de um fogo cruzado? Você sabia que tem gente que não passa por nada disso? Pois é, para esses a ditadura acabou.

Mas não é correto dizer que a classe trabalhadora não lutou. Muitas trabalhadoras se envolveram no combate ao governo militar, pois sabiam que toda essa repressão era justamente para impedir a ruptura do país com essa herança histórica de exclusão e violência. Afinal, o golpe foi dado em cima de um grupo político que buscava a reforma agrária e a erradicação do analfabetismo. Dois problemas nunca superados no Brasil.

No livro “Resistência tem voz de mulher” (Selo Agrupamentos, 2023) encontramos o relato:

Eu tinha apenas 12 anos, estava eu e dois irmãos (7 e 4 anos) em casa, quando fui abordada por dois homens que bateram palma no portão, se identificaram como policiais, para entregar uma intimação para minha mãe em razão dela ter presenciado um acidente de trânsito. O acidente de trânsito não aconteceu e a intimação era da polícia militar do comando sul. Meu estômago diminuiu, minha barriga doeu, meu coração amedrontado entendeu exatamente o que e quem bateu em nossa porta. Minha mãe, ativista dos movimentos sociais, clubes de mães, saúde, creche e educação, teve uma fala gravada em uma reunião por um olheiro.

Esse relato marca muito bem o perfil e a luta de quem militava nas periferias. A presença das mulheres foi fundamental e até hoje a presença de aparelhos do estado (escola, UBS, creches, etc.) são conquistas dessas mulheres que se organizaram para garantir os direitos às suas famílias.

Também é importante destacar a luta dos operários de fábrica.  Em 2021, foi divulgado um relatório sobre os crimes da Volkswagen em colaboração com a ditadura brasileira entre 1964 e 1985. De autoria do Ministério Público Federal, Ministério Público de São Paulo e Ministério Público do Trabalho, o relatório expõe como a empresa contribuiu com a denúncia de funcionários como o eletricista José Miguel, “demitido pela Volkswagen por distribuir um jornal entre funcionários. A empresa não só registrou a atividade como entregou à polícia o nome, fotos e informações sobre Miguel e mais três suspeitos”.

Infelizmente, são anônimas e anônimos os revolucionários da periferia. Livros como o Rexistência tem voz de mulher são fundamentais para documentar essa luta. O Expresso Periférico sempre faz questão de destacar que todo avanço do território se deu por meio de organização política das moradoras e moradores. Ainda que o medo seja parte de nosso cotidiano, ainda que o desaparecimento dos homens e meninos de nossas famílias seja um risco iminente, ainda que as mulheres sofram com a mão do patriarcado, houve e sempre haverá disposição para o combate. Por aqui, a repressão segue há mais de 400 anos, mas ainda estamos aqui.

Imagem: Rexistência tem voz de mulher / organização: Evinha Eugênia, Florencia J. Castoldi, Marilene Geronimo, Zulmira Fonseca — 1. ed. — São Paulo: Agrupamentos, 2023.

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