Por Eurico Pereira de Souza
O Dia dos Trabalhadores, no mundo e em diferentes culturas, tornou-se, há décadas, um dia de luta e de posicionamento público dos incômodos e denúncias sobre as injustiças que o grande capital opera, ao fazer a gestão dessa atividade humana. Por mais que no confronto entre capital e trabalho, o primeiro consolida e reatualiza processos de exploração sobre o segundo, o trabalho conserva – apesar da alienação, apesar da sua instrumentalização – o caráter humano que lhe é inerente.
Como manifestação básica da vida humana, o trabalho já carimba sobre a natureza o traço do humano. Marx e Engels (Ideologia Alemã, 1998) chamaram atenção para esta formação do homem ligada ao mundo, ligação operada pelo trabalho no momento em que o homem, ao produzir as condições básicas de sobrevivência, produz a si mesmo: agindo sobre a natureza, o homem a transforma. Porém, ela, ao sofrer tais alterações, carimba no homem também suas manifestações. Nesta formulação explicativa da nascente antropologia humana, Marx e Engels situam que na condição básica de busca da sobrevivência, propriedades humanas, como a ideia, a reflexão, incidem sobre a natureza, criando objetos com a marca do humano; mas, neste ato criativo, o homem recebe os condicionamentos da matéria que também delimitará sua forma de ser. Logo, as ideias sempre estão vinculadas e determinadas por uma base material, e a base material torna-se significativa quando alterada em si pelas ideias. Assim, não há ideias soltas no mundo sem uma base material, portanto separadas dos condicionamentos econômicos e sociais; e não há vida material, vida de produção e reprodução (alimentação, emprego, consumo…) da força de trabalho, sem ideias que as sustentem. A marca humana muda o mundo, como também o mundo muda o homem.
Este caráter humano do trabalho, que busca preservar todos os sobreviventes de uma sociedade, pode ser visto, quando suspendida a alienação, quando superada a ignorância, na constatação de que a alimentação de todos, provém das mãos dos trabalhadores. Sobre isto, diz Adorno e Horkheimer
Os trabalhadores, que são na verdade aqueles que proveem a alimentação dos demais, são alimentados, como quer a ilusão ideológica, pelos chefes econômicos, que são na verdade os alimentados. A posição do indivíduo torna-se assim precária. No liberalismo, o pobre era tido como preguiçoso, hoje ele é automaticamente suspeito. O lugar de quem não é objeto da assistência externa de ninguém é o campo de concentração, ou pelo menos o inferno do trabalho mais humilde e dos slums [cortiços]. (ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1985, p. 141).
Pela lente destes filósofos da Escola de Frankfurt, nos anos 40 do século passado, sob a tentativa de compreensão das causas do fascismo e nazismo, detecta-se o papel social do trabalho e dos trabalhadores, mesmo que envolto pelos véus ideológicos que visam diminuir sua relevância. Aproximando esta avaliação sobre a realidade brasileira atual, profundamente humano é o trabalho desempenhado pelos Sem Terras e demais comunidades da agricultura familiar em prover a alimentação dos demais.
Talvez em nossas paragens, a afirmação mais explicita da humanidade que acompanha a ideia do trabalho seja encontrada em obras do cancioneiro brasileiro. A música brasileira registrou momentos sublimes em que o trabalho se apresenta com a pujança de valores de solidariedade, fraternidade, cuidado e proteção. Neste sentido, o grande Gordurinha, no caso, Waldeck Arthur de Macedo, o autor de “Súplica cearense”, escreveu a letra “Vendedor de Caranguejo”. Esta, em bela interpretação recente de Gilberto Gil, no CD Quanta, narra a luta pessoal do vendedor de caranguejo Uçá que, com os pés afundados na lama, ao longo de toda a vida, vasculhava no lodo, o caranguejo para levar ao mercado, e assim, conseguir o arroz e o feijão para a esposa e os filhos. Na letra, o narrador já com idade avançada, e com os filhos já crescidos, rememora
Eu perdi a mocidade/Com os pés sujos de lama/Eu fiquei analfabeto/Mas meus filho criou fama/Pelo gosto dos meninos/Pelo gosto da mulher/Eu já ia descansar/Não sujava mais os pé. Os bichinho tão criado/Satisfiz o meu desejo/Eu podia descansar/Mas continuo vendendo caranguejo. (Vendedor de caranguejo. Gordurinha: Gilberto Gil. Rio de Janeiro: Warner Music, 1997. CD duplo).
Já idoso, e apesar dos apelos dos filhos para que descansasse, o narrador informa “…continuo vendendo caranguejo!”. Aqui, a relação social não é somente, como pretende o antigo liberalismo e o atual neoliberalismo, a ideia da vida privada de “cuidar da minha família”. É algo mais: na percepção dos filhos é a gratidão para quem, pelo trabalho, trouxe o sustento para a casa. Pelo trabalho, a gratidão, a solidariedade, a cumplicidade, o cuidado, a proteção e a lealdade, se concretizam como valores que vinculam as pessoas, e mesmo que o trabalho superexplorado guarda em si, devido ao sistema capitalista, o conteúdo de alienação, ele não deixa de ser uma relação social, e por isto, a sua realização não deixa de conter a esperança da resistência da vida em comunidade como mais determinante do que o isolamento privado.
Neste mesmo espírito, em 1967, encontra-se na poesia de Milton Nascimento a belíssima “Canção do Sal”. O registro da atividade do salineiro identifica o mesmo sentimento do vendedor de caranguejos: prover a casa, para que os filhos e a esposa não passem necessidades. Na parte final da letra, a esperança do narrador:
Trabalhando o sal/Pra ver a mulher se vestir/E ao chegar em casa/Encontrar a família a sorrir/Filho vir da escola/Problema maior, estudar/Que é pra não ter meu trabalho/E vida de gente levar. (Canção do Sal. Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 1967. Dubas Música/Universal Music, 2002. 1 CD).
Acima, já houve a referência de que para Marx as ideias não são fenômenos soltos no mundo, algo como resultado de um idealismo puro abstrato. Não! As ideias tem base material pois elas também resultam das condições sociais e econômicas, portanto condições materiais que moldam as relações entre as pessoas. Por que retomar tal questão? Milton Nascimento situa que o momento disparador de elaboração da referida letra estava todo enredado por sentimentos do mundo do trabalho. Ele estava trabalhando. E lia um fato ligado ao mundo do trabalho. O sentimento para elaboração da letra esteve embebido das situações concretas, situações materiais e humanas da alegria e do sofrimento do trabalho:
Outras destas canções fiz sozinho, como Canção do Sal. Eu trabalhava em um escritório de Furnas e estava lendo um livro de jazz sobre as canções de trabalho: músicas que fazem parte da rotina de trabalhadores em plantações e outras atividades, e que são muito bonitas! Aquilo me balançou. Lembrei que quando eu era pequeno, a minha madrinha sempre levava a gente para Cabo Frio, e a gente passava pelas salinas. Juntando essas histórias fiz uma canção. (Canção do Sal. Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 1967. Dubas Música/Universal Music, 2002. 1 CD – Encarte).
E há que se chamar atenção para o início da letra cuja mensagem “Trabalho o dia inteiro pra vida de gente levar” conserva a esperança da mentalidade popular de que o trabalho confere dignidade às pessoas. Como se dissesse, “trabalho para ter uma vida melhor”. Aqui, identifica-se novamente a humanização conferida ao trabalho: a possibilidade de torna-se melhor do que se é. E, desse modo, não custa lembrar que, a partir do filósofo Kant, a ideia de dignidade será uma base para que no futuro se imaginasse o trabalho justo como aquele que não poder colocar o homem como instrumento da produção. Dirá o filósofo:
Somente o homem, considerado como pessoa, isto é, como sujeito de uma razão prático-moral, está acima de todo o preço; pois que, como tal (…), não pode valorar-se apenas como meio para fins alheios, mas sim como fim em si mesmo, isto é, possui uma dignidade (um valor intrínseco absoluto) mediante a qual obriga todos os demais seres racionais do mundo a guardar-lhe respeito, podendo medir-se com qualquer outro desta espécie e valorar-se em pé de igualdade. (KANT, Immanuel. Metafísica dos Costumes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017, p. 367.).
O que se observa, pela análise de Kant, é que o conceito de dignidade, fundamentalmente expressa valor no sentido de valor moral, pois, dignidade, segundo tal pensador, deve ser algo que não tem um preço, ou seja, aquilo que não pode ser negociado, portanto o que não pode ser colocado no mercado, pois não pode e, não deve, ser trocado por outra coisa. Neste contexto teórico, dignidade guarda um valor intrínseco, ou seja, é um valor em si mesmo. Sendo um valor em si mesmo, e sendo uma propriedade do ser homem, portanto propriedade que faz deste ser o que se chama de “ser humano”, logo, ser digno é não ser meio, servir de meio para outros. Muitas outras coisas têm um fim em vista de outras coisas: a cadeira para sentar; a casa para habitar; a ferramenta para otimizar a ação prática. Estas, podem ter um preço…sobre elas, podem criar o valor equivalente. No caso do homem, não! Logo, a ideia de dignidade se encontra amarrada à capacidade do ser humano de não ser um meio em vista de outros fins, mas sempre, um fim em si mesmo. É esta a esperança contida na frase “Trabalho o dia inteiro pra vida de gente levar”.
A reflexão acerca do conceito de dignidade humana também possibilita lembrar das contradições inerentes ao sistema capitalista. A realidade é lotada de contradições e é devido a isto que múltiplas mediações são requeridas para compreendê-la. O próprio pensamento burguês, por buscar uma base na materialidade da realidade, para, ao menos, ser convincente, traz em si contradições. Assim, se Kant ergue conceitualmente, pela ideia de dignidade humana, um pilar em defesa homem como ser inviolável, o próprio sistema capitalista, pela sua natureza busca a todo momento suprimir tal valor: o homem como meio para obtenção de lucro, logo, objeto de acumulação de capital, não passa para tal sistema, de uma peça a mais na engrenagem, ou seja, o homem não passa de coisa. Buscar a todo momento suprimir a ideia de dignidade humana é uma tarefa permanente do sistema capitalista como condição de sua realização.
Se várias sociedades chamam atenção para o Dia do Trabalhador, indicando ser obrigatoriamente um dia de luta, é porque se encontra objetivamente fartas situações pelas quais o capitalismo desumaniza o trabalho e, assim, põe a vida do trabalhador – como aponta Adorno e Horkheimer – num círculo infernal. Mesmo nas aparentes tarefas cujo resultado pode ser algo nobre para os trabalhadores, pode haver ali, pela mediação dos interesses do capital, a depreciação do humano. Francisco de Oliveira, eminente sociólogo, no início da década de 70 do século passado, no clássico texto referente às transformações da estrutura econômica do Brasil, escreveu
Uma não-insignificante porcentagem das residências das classes trabalhadoras foi construída pelos próprios proprietários, utilizando-se dias de folga, fins de semana e formas de cooperação como o “mutirão”. Ora, a habitação, bem resultante dessa operação, se produz por trabalho não-pago, isto é, supertrabalho. Embora aparentemente esse bem não seja desapropriado pelo setor privado da produção, ele contribui para aumentar a taxa de exploração da força de trabalho, pois seu resultado – a casa – reflete-se numa baixa aparente do custo de reprodução da força de trabalho. (…) Assim, uma operação que é, na aparência, uma sobrevivência de práticas de “economia natural” dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expansão capitalista, que tem uma de suas bases e seu dinamismo na intensa exploração do trabalho. (OLIVEIRA, Francisco de. A Economia Brasileira: crítica da razão dualista. São Paulo: Estudos Cebrap, 2, 1972, p.31).
Oliveira chama atenção para a terrível mediação das práticas e das ações quando operadas pelo capital. Nas aparentes e importantes experiências de sociabilidade proporcionada pelos mutirões, conserva-se uma alta taxa de exploração do trabalho que faz diminuir a pressão sobre os próprios capitalistas no sentido de eles serem obrigados a remunerar melhor a reprodução da força de trabalho (salário). É como se nada escapasse ao capital, inclusive a básica experiencia de uma “economia natural” cujo sentimento comunitário estimulasse homens e mulheres a construírem, em comum, uma casa. Aliás, a ideia de trabalho não-pago, contido nos tempos de folga do trabalhador em que ele emprega para erguer sua casa, pode ser verificada no documentário “Fim de Semana, 1976”, disponível no YouTube.
Esta desumanização que o capital impõe ao trabalho, talvez tenha um registro ímpar em um texto do falecido psicanalista Hélio Pellegrino, grande articulista dos anos 80 e, pessoa importante no debate público naqueles anos do fim da ditadura civil-militar no Brasil. Segue um recorte que Pellegrino relembra ter-lhe contado um amigo
(…) uma história exemplar, que teria ocorrido na cidade mineira de Nova Lima, por volta dos anos 30. Existe em Nova Lima um importante mina de ouro – a mina de Morro Velho – que, àquela época, vivia o seu fastígio, e era propriedade de uma companhia inglesa. Os operários nas entranhas da terra, perfuravam a rocha com suas brocas e picaretas e, dessa forma, respiravam durante anos, nas galerias fundas, a poeira de pedra que o trabalho levantava. Sem nenhuma proteção, os mineiros, ao fim de algum tempo, e na sua quase totalidade, contraiam a silicose, causada pelo depósito de pó de pedra em seus pulmões desprotegidos. A silicose, além de encurtar a vida e a capacidade de trabalho, provoca também uma tosse crônica, oca e ressoante, capaz de denunciar – a distância – a moléstia que lhe dá origem. Nas noites de Nova Lima, quando buscava repouso, a cidade era sacudida e inquietada por uma trovoada surda e cava que, nascendo dos casebres operários, resvalava em ondas recorrentes até as fraldas das montanhas em torno. Era a grande tosse dos pobres, sintoma e denúncia da silicose que os roía. Os ingleses, perturbados em seu sono e em sua boa consciência (…) montaram em Nova Lima, com banda de música e foguetes, uma fábrica de xarope contra tosse que, ao mesmo tempo, produzia para o consumo dos colonizadores matéria-prima de refrigerantes não encontrados no país. A fábrica andou de vento em popa, produzindo tonéis e tonéis de xarope a preço módico, mas não tão modesto que impedisse uma pequena margem de lucro por unidade adquirida. Os ingleses, dessa forma, uniram o útil ao agradável. O abrandamento da grande trovoada brônquica foi transformado em fonte de renda – e de sossego-, permitindo aos súditos de Sua Majestade Britânica a boa consciência e a possibilidade de um sono reparador. A silicose, intocada, trabalhava em silêncio. (PELLEGRINO, Hélio. Psicanálise da criminalidade brasileira. In PINHEIRO, Paulo Sergio; BRAUN, Eric (org) Democracia X violência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 96-98).
A tragédia que o capital impõe aos trabalhadores se torna ela mesma fonte de riqueza, porque fonte de expropriação, sustentada por sua vez, na exploração do trabalho e transformada em mercadoria. O descarte total da dignidade humana se apresenta claro e nu para os interesses capitalistas: tudo se torna meio, o operário, sua tosse, o xarope e a necessidade de sono.
Por fim, voltando ao cancioneiro popular, não surpreende que naquele 1983, início dos anos de recessão profunda, a chamada “década perdida”, que pontua mais um período de profunda expropriação de riqueza sustentada sobre os trabalhadores, Gonzaguinha, com o fino olhar do artista que, um pouco adiante vê, apresenta para o público a canção “Um homem também chora (Guerreiro Menino)”. Registrando o sofrimento de homens e mulheres desamparados nos sonhos e nas esperanças, denuncia a desumanização imposta pela sociedade desigual que era o Brasil. E ao fim, a letra vai ao cume da situação que exige revolta:
Um homem se humilha/Se castram seu sonho/Seu sonho é sua vida/E vida é trabalho/E sem o seu trabalho/O homem não tem honra/E sem a sua honra/Se morre, se mata/Não dá pra ser feliz/Não dá pra ser feliz (Um Homem também Chora -Guerreiro menino. Gonzaguinha. Rio de Janeiro: EMI ODEON, 1983. 1 Disco vinil.
Despojado da condição básica que é ter sua força de trabalho vendida para levar o arroz e feijão para casa, o trabalhador exposto a profunda desumanização, pelo desemprego, vivencia o drama mais profundo de buscar sobrevivência em uma sociedade capitalista. Aqui, a contribuição de Gonzaguinha inspira retomar a violação do juízo kantiano: a dignidade humana, nos mecanismos reprodutivos do sistema capitalista é jogada para o lixo. A indignação que eticamente deve se seguir daí, convida a classe trabalhadora a se unir, e a conceber que ela, somente por meio da consciência de si, deve contar com ela mesma, para em seguida, sobre as suas alianças de classe, construir para si a transformação social. Fora isto, a opressão se mantém.
Imagem: Bruno O.

