Retomamos a publicação do editorial que não foi, registrando um momento de resistência e reconstrução.
No final de 2024, estávamos preparando a nossa edição para o Novembro Negro e, não por coincidência, a partir daquele mês não conseguimos mais publicar. O Expresso Periférico sofreu um ataque que resultou na perda de muitas matérias e afetou profundamente nossa produção editorial. Entre os textos que ficaram pelo caminho estava justamente o nosso editorial de novembro, escrito por Gabriel Messias, uma reflexão sobre o momento político e social que vivemos, inspirada no itã de Ogum presente no livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.
O editorial de novembro, que agora retomamos, refletia sobre o sentimento de deslocamento e frustração vivido por Ogum e fazia um paralelo com os desafios enfrentados pelas lutas populares e pela esquerda em tempos de retrocessos e crises estruturais. Frente ao silêncio inesperado, também nos vimos diante da necessidade de entender o que se perdeu e o que pode ser reconstruído.
Durante a reunião do coletivo editorial do Expresso Periférico, optamos por retomar a publicação deste editorial que não foi. Mais do que recuperar um texto perdido, essa publicação reafirma nosso compromisso com a comunicação popular e estimula a criação do documento deste momento.
O que fez Ogum se tornar Orixá?
O novembro negro chegou e, no movimento de Sankofa, o Expressso Periférico traz um itã de Ogum presente no livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi.
Sendo breve, conta-se que Ogum certa vez voltou da guerra e, logo ao entrar pela cidade, notou que seus súditos não o cumprimentavam e não olhavam em seus olhos. Esse sinal de rejeição para Ogum foi tamanho que a raiva o tomou por completo, fazendo com que o rei guerreiro entrasse num estado de fúria a ponto de assassinar qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. “Não reconhecido por sua própria gente! Humilhado e enfurecido, Ogum, espada em punho, pôs-se a destruir a tudo e a todos”. Mais tarde, um grupo de súditos salvos da matança vieram e contaram a Ogum que a cidade passava por um ritual sagrado em que não se podia falar e nem olhar nos olhos de ninguém, por esse motivo não saudaram seu rei. Ogum sentiu o peso de seu erro e ficou inconsolável, sentia que não podia mais ser rei. Seu tormento não tinha medida. “Ogum então enfiou sua espada no chão e num átimo de segundo a terra se abriu e ele foi tragado solo abaixo. Ogum estava no Orum, o Céu dos deuses. Não era mais humano. Tornara-se Orixá”.
O Editorial de novembro foi difícil de ser escrito e muitos foram os motivos. A esquerda perdeu as eleições municipais em São Paulo mais uma vez. O Censo revela que a cidade de São Paulo é mais preta, mas ainda preserva suas desigualdades. O Expresso Periférico sofre um golpe e quase perde toda sua produção artística e crítica. Diante de tudo isso, olha-se para o horizonte e fica difícil encontrar uma trilha que traga segurança na rota. “O que fazer?”
Sabemos que a direita tem a máquina pública, as igrejas e até o crime organizado caminhando na mesma linha ideológica. Também sabemos que o discurso neoliberal contamina nossa sociedade há muito tempo. Isso permite que a direita não precise “amenizar” seu discurso para ser aceita, ela oferece uma solução meritocrata e dentro da linguagem da violência. Enquanto isso, o movimento eleitoreiro da esquerda ainda luta por uma “aceitação” das pessoas. Isso significa que não há “trabalho de base”? Não há movimento social nas periferias? Não há juventude organizada? Há, sim, mas não aparece na timeline da rede social de muita gente. Toda essa crise, talvez, sirva para que algo novo possa surgir. Há muitas esquerdas, dentre elas, há camaradas invisíveis aos olhos das telas, a luta dessas pessoas “não será televisionada”. Quando perguntado se eles acreditam que a esquerda se afastou das bases, ouve-se a resposta com muita propriedade: “Essa culpa eu não carrego”. Mãe Stella de Oxóssi já dizia: “Graveto é que derruba panela”. Nesse Novembro Negro, uma parte dos progressistas eleitoreiros lamentam a baixa adesão da população pobre e preta ao pensamento de esquerda. São as e os camaradas invisíveis os cidadãos que informam Ogum sobre o motivo do silêncio do povo, o que resta agora a esse grupo progressista é entender o que fez Ogum se tornar orixá.
Imagem: Constelar