Essas mulheres não pedem licença para existir: plantam, curam, acolhem, ensinam, batem os tambores, entoam torés e enfrentam as múltiplas opressões de gênero.

Julho não é só um mês no calendário. Julho é tempo de tambor, de voz firme, de pé no chão vermelho da luta, do sangue da vida. Julho é o mês das Pretas, das mulheres negras e indígenas que carregam o mundo nas costas e ainda encontram tempo e força para dançar, amar, resistir e continuar. É nesse mês que ecoa com força o 25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma data que nasce da luta coletiva, não da concessão estatal. Uma data que afirma: nós estamos vivas e nossa existência é política.

Essa memória insurgente vem das encruzilhadas da história, da diáspora africana, dos territórios indígenas invadidos, dos quilombos apagados, dos corpos colonizados. Mas também vem da Marcha das Mulheres Negras que tomou Brasília em 2015, dizendo em alto e bom som: “contra o racismo, a violência e pelo bem viver”. Não foi um evento. Foi uma revolução matrigestora, uma afirmação radical da vida. Uma pedagogia da presença que desafiou o silêncio imposto pelo patriarcado e pelo Estado genocida.

O posicionamento político das mulheres originárias, latino-americanas, caribenhas e afro-diaspóricas é radical porque nasce da margem, da oralidade, do cuidado comunitário, da denúncia da necropolítica e da cura coletiva. É radical porque se opõe frontalmente à lógica da exploração capitalista que transforma corpos em mercadoria e territórios em lucro. Essas mulheres não pedem licença para existir: plantam, curam, acolhem, ensinam, batem os tambores, entoam torés e enfrentam as múltiplas opressões de gênero.

Essa luta é plural, intergeracional, continental. Vai das Iyas do Candomblé às lideranças indígenas, das militantes afro-colombianas às defensoras da terra em Honduras. Passa pelos quilombolas, quebradeiras de coco, marisqueiras, ambulantes, professoras, mães e pesquisadoras. Mulheres que seguram as pontas do mundo e do seu território, ainda que o mundo insista em apagá-las.

Nas periferias urbanas do Brasil, elas também se levantam. As matrigestoras dos becos, das vielas, dos cortiços e ocupações — que constroem estratégias de cuidado onde o Estado falha. Mulheres que garantem o arroz no prato e o saber no caderno. Que organizam creches comunitárias, redes de solidariedade, terreiros, cozinhas coletivas e resistem ao genocídio cotidiano com fé e firmeza. São as guardadoras da cidade viva, as que reinventam o cotidiano mesmo quando tudo parece ruir. Mulheres que, como suas irmãs andinas, caribenhas e negras diaspóricas, costuram a vida com retalhos de dignidade, ancestralidade e luta coletiva.

A cada dia, as mulheres negras e indígenas salvam o Brasil de si mesmo. Com cabaça, reza, dança, marcha, saber, corpo e coragem. São elas que sustentam a saúde pública com o cuidado invisível; que mantêm viva a oralidade, a sabedoria das ervas, a pedagogia do chão e da escuta. A luta pela vida da população negra e originária é também a luta pela reexistência da terra, das águas e das florestas.

Por isso, o julho das Mulheres Negras Plurais é um território-tempo de visibilidade, mas também de alerta. Um mês para celebrar, sim. Mas principalmente para cobrar políticas públicas antirracistas, para denunciar o encarceramento em massa da juventude negra, o extermínio de mulheres indígenas e a omissão frente aos feminicídios nos territórios de luta.

Não se trata de comemorar. Trata-se de lembrar que nossa existência é um ato político coletivo, que cada mulher preta e indígena que funda um terreiro, que defende seu território, que se autodeclara, que chega à universidade ou que simplesmente insiste em viver, está construindo um outro mundo possível – fora da lógica da morte.

E como diria Lélia Gonzalez, nossa referência eterna: “A categoria mulher negra é político-cultural. Somos sujeitas da história.”

Referências e mais informações

  • Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB: https://amnb.org.br/
  • Marcha das Mulheres Negras 2015: https://marchadasmulheresnegras.org/
  • Dossiê Julho das Pretas 2023 – Instituto Odara: https://institutoodara.org.br/2023/07/25/baixe-o-dossie-julho-das-pretas-2023/
  • GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
  • DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
  • CARNEIRO, Sueli. Escritos de uma vida. São Paulo: Editora Jandaíra, 2023.

Imagem: IA