Por Margaret S. de Oliveira

Antes mesmo do termo “ANTIRRACISMO” ser amplamente divulgado por lideranças de repercussão nacional e mundial e pelas mídias sociais, militantes negros e brancos de diferentes segmentos sociais do Jabaquara já atuavam em prol da justiça racial e social. Estas tinham a consciência de que precisavam combater o racismo, as discriminações e preconceitos. Eram pautas antirracistas.

Desde a sua origem, ainda quando a área que hoje denomina-se Jabaquara e que um dia foi predominantemente território de povos indígenas, mais precisamente dos tupis-guaranis, o Jabaquara já se comprometia com as lutas abolicionistas da cidade.

No local onde hoje funciona o Centro de Culturas Negras do Jabaquara “Mãe Sylvia de Oxalá” – CCN Jabaquara – existia um importante Quilombo de Passagem – que abrigava negros que fugiam em busca de liberdade no Quilombo do Jabaquara em Santos – SP, um dos maiores do país, este chegou a abrigar até 10 mil pessoas, todos evadidos das fazendas de café em SP, segundo Lilia M. Schwarcz. Provavelmente grande número destes passaram pelo hoje bairro do Jabaquara em SP.

Em relação a dúvida de alguns historiadores quanto a existência ou não deste quilombo, vale ressaltar o que diz Schwarcz:

“No Brasil pessoas negras morrem duas vezes: fisicamente e na memória. Feita na base do lembrar pouco e esconder muito, a nossa história oficial tornou-se por demais colonial, europeia, branca e masculina. Sobre as populações negras, espalhou-se um imenso silêncio, quando não a invisibilidade e o apagamento.”

Objetivando dar visibilidade a história da população negra no Jabaquara, as lutas, o trabalho de conscientização e resistência, a importância cultural, ainda que em detrimento de muitas ações não menos importantes, registraremos aqui algumas ações que foram desenvolvidas junto à população por movimentos e organizações sociais, coletivos negros, lideranças comunitárias nos últimos 50 anos.

Na década de 60, as Obras Comunitárias de Promoção Humana São José Operário mantinham em seu espaço atendimento a crianças e adolescentes num projeto denominado OSEM – Orientação Socioeducativo ao Menor. Este grupo tinha como um dos pilares trabalhar a questão da “Consciência Negra”. Entre as diversas atividades em relação à negritude, uma que ficou na memória de crianças e adolescentes e que, hoje, adultos relatam a importância que teve em suas vidas, foi a construção de uma peça teatral criada por crianças e adolescentes que recebeu o nome de: “SE JESUS NASCESSE NEGRO”.

A peça propiciou a reflexão das questões raciais tanto pelo grupo que a produziu e interpretou, como foi possível levar a discussão para diversas comunidades, extrapolando o espaço das reuniões de famílias destas crianças e adolescentes, pois foi apresentada nas missas de várias paróquias, nas comunidades agregadas a estas e em diversos grupos comunitários por quase um ano. Importante lembrar que vivíamos no auge da ditadura militar e que, se por um lado havia uma igreja combativa ligada a teologia da libertação, por outro lado havia uma igreja conservadora e às avessas a qualquer reflexão libertária. Imaginem pensar em um Jesus Negro em tempos tão sombrios!

A década de 70 chega sob a vigência e o impacto do AI 5 – Ato institucional nº 5 – que teve como característica principal dar “…ao presidente da república o direito de promover inúmeras ações arbitrárias e reforçou a censura e a tortura como práticas da ditadura...”  Este cenário propicia um verdadeiro massacre contra todos que se opunham ao regime e também contra jovens negros da periferia, que só por serem negros já eram “suspeitos” e vítimas da arbitrariedade e violência policial.   

Neste cenário, liderados por Luzia Alves Basílio – D. Luzia, uma importante liderança do Jabaquara, mas com atuação em toda a cidade de SP, junto a outros militantes iniciam a abertura de um Centro de Defesa dos Direitos Humanos, que mais tarde se chamaria – Centro de Defesa dos Direitos Humanos Frei Tito de Alencar Lima. Assim sendo, o Centro de Defesa Frei Tito nasce a partir da necessidade de enfrentamento a esta violência institucional.  Os “esquadrões da morte”1 agiam livremente com o apoio de políticos e empresários.   

Advogados do Centro de Defesa Frei Tito, além de orientar e acompanhar vários casos, investiam fortemente num trabalho de formação. Inúmeros foram os encontros, seminários, cursos que discutiam, entre outros temas, as questões raciais.   

Celebrando o 20 de Novembro nos anos de 1998/1999 – o Grupo Semear para o Trabalho produziu e apresentou no auditório de uma importante indústria farmacêutica no município de Guarulhos a peça “Zumbi – Vive para Sempre”, posteriormente levou a discussão também para várias comunidades de Guarulhos. Na época, D. Lourdes liderança no Jardim Lourdes, discutia junto a comunidade a questão da violência contra jovens negros da periferia e o quanto estes são cooptados pelo crime organizado. Foi então que, tomando conhecimento do trabalho deste grupo, os convidou para um trabalho junto à comunidade local.  A peça era apresentada em cima de um caminhão emprestado por um morador. 

1998/1999 – Grupo Semear para o trabalho – Guarulhos

A Comunidade São Pedro e São Paulo em Americanópolis também prestaram homenagem a Zumbi dos Palmares – organizando outra peça teatral “Zumbi de Palmares – Vive em nossas lutas”.  Esta peça também foi apresentada tanto na Comunidade São Pedro quanto em outras igrejas e comunidades do Jabaquara.  Na igreja de Nossa Senhora de Aparecida, no Jardim Miriam, a peça foi apresentada durante as celebrações de missa afro celebrada pelo então Pe. José Rezende, falecido em 2014 

Também na Comunidade Nossa Senhora de Aparecida no Jardim Miriam havia e há grupos populares que discutem as questões raciais. A praça principal do Jardim Miriam, desde a década de 70, é um importante centro de denúncias, de discussão popular e de atividades culturais, incluindo atividades e manifestações contra o racismo e suas manifestações.

Quando na década de 90, mais precisamente em 1991, foi instituído oficialmente na cidade de São Paulo o dia 20 de Novembro para celebração do – “Dia da Consciência Negra”, funcionárias da Creche Municipal de Vila Mira organizaram outra peça teatral, baseada na história de Ana Maria Machado – Menina Bonita do Laço de Fita – que narra a história de uma linda menina negra que desperta a admiração de um coelho branco, que deseja ter uma filha tão pretinha quanto ela. Esta peça teatral tinha o principal objetivo de valorizar a beleza negra em todos os seus aspectos e tinha como principal público crianças de 0 a 6 anos, que viviam sob a forte influência e pressão dos modelos de beleza “branca, magra e loiras de cabelo liso”.  

Importante lembrar que este período é marcado pela presença da apresentadora de programa infantil Xuxa Meneghel   e suas Paquitas, todas brancas, magras e loiras, que influenciavam milhões de crianças e adolescentes em todo o país. Ser Paquita era o sonho de muitas meninas. A pergunta que o coelho branco faz: Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo para ser tão pretinha? –  foi fundamental para resgatar a autoestima de pelo menos umas centenas de crianças e adolescentes do Jabaquara. Também esta peça foi apresentada em várias creches da região e em grupos comunitários do Jabaquara. Outra preocupação de militantes e lideranças do Jabaquara era a questão da educação de jovens negros. Segundo José Williams Diniz Monteiro, “… em 2003, foi instalada na Comunidade São Pedro e São Paulo de Americanópolis – Jabaquara, uma unidade do Educafro…”. Esse projeto, que tem como proposta propiciar a jovens negros e negras o ingresso na Universidade, hoje se estendeu à população jovem de baixa renda.

Ainda segundo José Williams “… em 2010, este pré-vestibular comunitário mudou-se para o CEU Caminho do Mar…”. 

Em 2009, relata Nelci Abilel – Gerente do CDC Leide das Neves, “… aconteceu pela primeira vez a Marcha da Consciência Negra no Jabaquara. A marcha nasceu do projeto a “Força da Cor”, desenvolvida pelo Centro de Desenvolvimento Comunitário Leide das Neves Jabaquara – da Associação Cristã de Moços – ACM São Paulo e foi organizada juntamente com uma comissão com lideranças comunitárias, órgãos públicos e privados, Organizações Sociais – OSCs e escolas do Distrito do Jabaquara. 

Junto a esta ação, também surgiu a “Noite dos Homenageados”, que objetivava homenagear moradores e profissionais afrodescendentes que atuam na perspectiva de uma educação antirracista em diversas áreas, educação formal e não formal, cultural entre outros. De 2019 em diante, este movimento passou a atuar autonomamente com o nome Coletivo Jabaquara – hoje denomina-se Coletivo de Resistência Negra Yabaquara – lembrando os povos indígenas e a população negra que dá origem ao Jabaquara. 

Ao longo de 11 anos, aconteceram 11 marchas no território, com diferentes pautas e 52 pessoas foram destacadas, celebradas e homenageadas, todas de alguma forma se relacionam com o Jabaquara, ou moram/moraram trabalham/trabalharam… Outro projeto de relevância que surge no Jabaquara é a “Caixoteca Literária Negro-Brasileira: práticas pedagógicas para educação antirracista”. Este projeto nasce com base na Lei 10.639 de 2003, a qual altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Nasce a partir da experiência da pedagoga Evaldete M. S. Martins, no CEU Caminho do Mar. Com a “Caixoteca em mãos”, Val, como é conhecida, “…leva para crianças e adolescentes livros de diversos escritores e escritoras, ilustradores, ilustradoras e editoras, contando histórias e destacando a cultura africana em todos os seus aspectos: culinária, instrumentos músicas, tecidos africanos, brincadeiras. Trilha pelos caminhos do “encantamento literário”, e do diálogo compartilhado…”.

Um importante marco de resistência negra no território é  O Centro de Culturas Negras do Jabaquara “Mãe Sylvia de Oxalá” – CCN (citado no início deste texto) que, conforme consta no sitio da Secretaria de Cultura, está profundamente ligado às tradições dos homens e mulheres negras da cidade de São Paulo como um dos principais espaços de preservação, promoção, (re)valorização das culturas afro-brasileiras e único equipamento público municipal com características de “centro cultural” na região do Jabaquara, desde a década de 1980.

O espaço já abrigou, no início da década de 1990, o Acervo da Memória e do Viver Afro-brasileiro “Caio Egydio de Souza Aranha”, idealizado por Mãe Sylvia de Oxalá, que reuniu objetos referentes à presença dos negros na cidade de São Paulo. Tais objetos encontram-se hoje, em grande parte, sob a guarda do Axé Ilê Obá, primeiro espaço de Candomblé tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) como patrimônio histórico, cultural e espaço de preservação das tradições ligadas à Orixalidade.

Entre as lideranças negras que, deixaram um legado de trabalho em prol da luta pela justiça social, igualdade racial e, principalmente, no enfrentamento ao racismo/discriminações e suas diversas faces, entre tantos, podemos destacar: 

Em memória:  Antônio Galdino, Azarias Tiago, Luzia Alves Basílio, Palmira dos Santos Abrantes, Maria Aparecida Jeronimo,  José Rezende Ribeiro. Todas são lideranças comunitárias que atuaram no período da ditadura militar, inclusive e principalmente no período da reconstrução democrática no país, no Movimento de Luta Contra a Carestia na década de 70, participaram de grupos temáticos na elaboração da Constituição de 88, das discussões para a elaboração do estatuto da criança e adolescente, do movimento de saúde, moradia, luta por creche, educação entre outros. 

Continuam na luta entre esses:  Benedita Creusa de Andrade, João Batista Mariano, Nelci Abilel, Maria de Lourdes Ribeiro dos Santos, Nadir Maria da Conceição Ferreira, Neide da Silva Castro, Isabel Francisca de Almeida, Sandra Marta dos Santos, Angelina Almeida dos Santos, Mauro P. de Castro e tantos outros.                                                                                                                                                                            

Outros se destacaram no esporte: Deise Jurdelina de Castro Freire é moradora do Jabaquara ex-atleta. Foi velocista e praticante de salto em altura. Representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Verão de 1952. Foi medalhista nos Jogos Pan-Americanos de 1955 e homenageada nos Jogos Olímpicos de 2016.  

Dr. Edgard Freire – Biomédico e Atleta – Morador do Jabaquara, iniciou na Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP como servente, terminou como professor da Medicina, na Enfermagem, Ortóptica, Fono e Biomedicina. Foi também um importante atleta brasileiro. 

Maria Aparecida Amaral, na área da música, é instrumentista, pianista, maestrina, fundou o Coral Mariama que tinha como principal objetiva divulgar a música Afro. No ano de 2002 teve uma série de apresentações nas estações do Metrô. Participa desde 2010 da bateria da 3ª idade, toca surdo de terceira. Atuante nas Missas Inculturadas (Missa Afro). 

Valtinho Rege começa a vida de cineasta e Youtuber a partir da laje de sua casa na Vila Clara. É negro brasileiro, que está ganhando destaque mundial. Recentemente, seu documentário Preto no Branco, sobre os perigos de ser negro em nosso país, foi selecionado para o 13th Montreal International. Tem um canal no YouTube chamado Energia Positiva.

Em dezembro de 2023, foi inaugurado o CCA – Centro de Convivência de Criança e Adolescente Luiz Gama – parceria da Supervisão de Assistência Social do Jabaquara com a organização social Sociedade Beneficente São Tiago, em homenagem ao importante Luiz Gonzaga Pinto da Gama – importante advogado abolicionista, jornalista e escritor brasileiro.  Nasceu livre, no entanto, foi feito escravo aos 10 anos e até os 17 anos era analfabeto. No entanto, conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a lutar contra a escravidão e trabalhar em defesa de escravos.  Luiz Gama nasceu na Bahia, foi para o interior de SP, mas foi na cidade de São Paulo que se transformou no único abolicionista conhecido do Brasil que um dia foi escravo.  Luiz Gama morre em 1882, neste mesmo período inicia-se, na cidade de SP, um movimento de abolicionistas ligados a Luiz Gama (os Caifazes), defendendo ações mais efetivas de combate aos escravistas.  Estas pessoas “escondiam” escravos fugitivos em suas casas, que eram encaminhadas para o Quilombo de Passagem no Jabaquara e posteriormente para o quilombo de mesmo nome em Santos.  

Fico a pensar se este importante abolicionista chegou a conhecer o Quilombo do Jabaquara, em São Paulo (não confundir com o Quilombo do Jabaquara em Santos), e em função de suas convicções libertárias, influenciou de alguma forma a vocação do Jabaquara em lutar pela justiça social e racial.    

Imagem: Acervo pessoal da autora

  1. Esquadrão da Morte segundo a Wikipédia: O Esquadrão da Morte foi uma organização paramilitar surgida no final dos anos 1960 cujo objetivo era perseguir e matar pessoas tidas como perigosas para a ditadura militar. ↩︎