Por José Wilson de Souza

“Quem quer passar além do Bojador/
Tem que passar além da dor”.
Fernando Pessoa

Nas entranhas de uma noite quente
um homem negro em sua bike
com uma bag em suas costas
atravessa ruas e semáforos
sobe e desce e pedala e sua
e sua e pedala sem descanso.
Pedalar é preciso.
Transpõe aclives e declives para matar a fome
de alguém que tem fome e pressa.
As crianças palestinas também esperam
e morrem
premidas e acossadas pelo poder de fogo do alardeado
“povo escolhido”.
O entregador também tem fome,
mas a sua fome pode esperar
a sua sede pode esperar
a sua companheira pode esperar.
A sua peleja é outra e ele não pode parar.
O paradoxo da exclusão se desenha no conforto de uns
e na submissão do outro.
Desenho cujas cores não se esmaecem
Apesar do tempo,
Apesar das tantas lutas,
Apesar dos corpos que ficaram pelo caminho.
Já o algoritmo,
Em sua existência nebulosa,
Elusiva
Não dirige, não pedala e, portanto, não sua.
Não sente fome ou sede;
Não sente calor ou frio;
Não sente empatia ou dó
das crianças palestinas,
do entregador de Ifood e
tampouco
do motorista uberizado que se crê empreendedor.
Como uma entidade convenientemente divina e distante
Escondida nalgum Olimpo tecnológico
É, em verdade, apenas um mísero capataz
De um tipo de monarquia tecnológica transnacional.
Esse ilustre desconhecido:
Molda comportamentos
Potencializa a ansiedade de pessoas
reféns de prazeres efêmeros
que a pequena tela
brilhante e colorida
lhes proporciona.
Essa busca desenfreada por dopamina
desperta desejos desconhecidos de consumo.
Ainda uma vez e como sempre e incansavelmente
é preciso estar atento e vigilante
Diante das garras imperceptíveis de um poder escravizante.
A Arte (em suas mais variadas formas e expressões)
Precisa ser bastião inexpugnável
na defesa da Liberdade.
A poesia precisa ser quilombo
Trincheira de resistência e de confronto,
Voz que não se cala diante das mentiras,
dos desmandos e das injustiças,
dos fascistas de ocasião.

Imagem: Bruno O.