Estamos acostumados a chamar de analfabeto o indivíduo que não sabe ler e escrever. Quando alguém desconhece determinado assunto, dizemos que ele é ignorante. Nesse sentido, todos somos mais ignorantes do que sábios, pois desconhecemos muito mais do que conhecemos. Existem os “analfabetos políticos” que não conhecem o emaranhado da política e nem as forças que estão em jogo na luta pelo poder. Alguns desses ignorantes políticos optaram deliberadamente por abraçar essa imparcialidade enganosa.
A maior parte das pessoas aprende a ler e escrever na infância, quando ainda não tem formado o conceito de cada objeto na mente. Assim, escreve a palavra tijolo, sem conhecer um tijolo. Só enxerga as letras.
Uma pessoa adulta, na hora de ser alfabetizada, tem a vantagem de conhecer o tijolo antes de saber escrever a palavra. Quando a escreve, está muito mais capacitada do que uma criança para unir aquela “palavra-imagem” com o resto das palavras que formam a frase. Quando escreve tijolo, ela o vê na parede de sua casa ou na escola. Nesse sentido, essas pessoas têm mais facilidade de se alfabetizar porque tem o conhecimento dos conceitos. Para um indivíduo ser considerado alfabetizado, não basta que leia as palavras, é necessário que entenda o sentido e o alcance do texto.
Para ler um livro, temos que entender todos os parágrafos, todos os capítulos. Só assim compreenderemos a história. A compreensão, a criação imaginária, do romance narrado serão diferentes para cada leitor, dependendo de sua capacidade de viajar pelos caminhos, paisagens e cidades descritos pelo autor. Se lermos vários livros, teremos uma compreensão menos analfabeta na medida que consigamos relacionar as matérias descritas e os pontos de vista de diversos autores.
A riqueza dos livros é infinita, porque libera a imaginação do leitor para criar inumeráveis e inverossímeis cenários e personagens. Ele os dá forma a seu gosto e prazer, sem coação, preconceitos ou tabus.
A leitura nos leva a nos reconhecer não como mais sábios, senão como mais ignorantes.
Referências e mais informações
Texto disponível no livro De Alma Aberta: Crônicas Libertárias Sobre a Vida e o Chão de Fábrica, de Vicente García Ruiz, Edição do Autor (2015).
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