E se usássemos o Dia das Mães para abraçar nossas escolhas e as das outras pessoas?
Chego neste maio de 2026 com a certeza serena de que não irei maternar. Sou mãe do Luiz, meu bebê amor que chegou e partiu brevemente, e isso nunca vai mudar. Porém, no percurso do luto, encontrei novas belezas que me tomaram inteira e fizeram entender que exercitar o cuidado diário, educar e acolher uma criança não eram mais o meu desejo.
Complexo? Sim. Quando uma mãe de colo vazio expressa a escolha de não maternar, soa, aos ouvidos de muitas pessoas, como “ela não conseguiu ter outro filho”. Soa, muitas vezes aos ouvidos dela mesma, como “mas antes era o que você mais queria, estranho agora não querer mais”.
Nas frases feitas que legendam fotos em redes sociais podemos ver, com frequência, “desistir não é uma opção”. Costumamos restringir desistir à ideia de fracasso. Mas vale pensar que desistir é uma ação imensa que pode abrir espaço para outros mundos de possibilidades. Jarid Arraes, no poema Fábula, escreveu lindamente que “desistir é coragem difícil”. E é mesmo. Fechar portas é desafiador.
Minha vontade é que nesse Dia das Mães, em que o comércio vibra com a sua segunda data comemorativa mais lucrativa, a gente faça uso do momento para refletir sobre as formas múltiplas de existir. Sigo entendendo o mês de maio como um disparador de ausências, sentimentos de inadequações e milhares de “tem que” familiares. Ainda assim, ele pode ser espaço para entendermos aquilo que Caetano já nos disse: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Pessoas que tem útero não estão (ou não deveriam estar) marcadas para engravidar ou para serem mães. Algumas pessoas escolhem maternar e maternam e outras escolhem maternar e não maternam. Há quem materne ainda que não tenha feito essa escolha. Vemos mulheres que nunca desejaram maternar ou que desejaram e depois mudaram de ideia. Existem mães que nunca gestaram fisicamente – gravidez e maternagem não são sinônimos. Gente que pensou muito antes de fazer essa escolha, gente que sempre teve a certeza da maternidade no coração ou que seguiu o roteiro conhecido da vida. Mães solo, mães atípicas, mães de colo vazio, mães exaustas, mães arrependidas, mães felizes.
Acredito que todas essas pessoas doam. E que todas essas pessoas deliciem a vida. Que tomaram e tomam boas e más decisões. Que nesse Dia das Mães, a gente se olhe com sinceridade e abrace as nossas escolhas e as imposições da vida. Que sejamos generosas com os caminhos que traçamos e com o que fizemos da gente. E que possamos aceitar, no exercício da abertura, as várias maneiras de viver com menos olhares desconfiados e imposições de certezas.
Termino esse texto com as palavras da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi (que, infelizmente, também se tornou mãe de colo vazio no início desse ano e a quem eu gostaria muito de dizer “eu sinto muito”):
“(…) me emociono por estar em pé na minha sacada numa nova manhã desse novo ano. Na verdade, tia Jane, gosto da minha vida, sim. Às vezes fico me remoendo em busca de um sentido para ela, talvez com frequência demais, mas é uma vida abundante, e ela me pertence. (…) Sempre há outras maneiras de viver, tia. Há outras maneiras de viver.” (A Contagem dos Sonhos)
Axé!
Referências e mais informações
- Para lembrar sempre, sempre e sempre: o Dia das Mães está em todas as vitrines, propagandas de ponto de ônibus e postagens de redes sociais. Na escola, o Dia das Mães não pode estar. Sendo a escola um espaço de busca por inclusão, enaltecer modelos parentais padrão exclui e agride quem não está dentro dessa caixa pequena.
Imagem: Acervo pessoal da autora

