Os fazedores de cultura surgem como cronistas que vêm contar suas histórias, suas referências, suas glórias e derrotas.

Arroz, feijão, óleo, batata, macarrão, livros, informação e vídeos. 

Inclua na sua lista de primeiras necessidades produtos essenciais para a existência e sobrevivência do indivíduo: arte, cultura e entretenimento. 

A periferia segue sem descanso, sem lazer, sem cultura, segue sem seu básico para existir, sem transporte, sem saúde, sem trabalho e sem educação.

Os fazedores de cultura surgem como cronistas que vêm contar suas histórias, suas referências, suas glórias e derrotas, trazendo assim as oralidades de uma periferia esquecida e desassistida pelo poder público.  

Fazer arte na periferia é um sacerdócio. 

É abrir mão de suas vontades, suas vaidades e dedicar-se a revelar uma verdade que venha contemplar a beleza e o olhar de todos. 

A arte na periferia resgata, reacende, recupera e nos reorganiza enquanto cidadãos num mundo tão cheio de privilégios para poucos e de descasos para muitos. 

Destaco aqui alguns trabalhos que são exercitados na periferia em busca dessa tal cidadania tão procurada, tão almejada e tão difícil de ser encontrada, mas nunca direi impossível. 

Os slams que acontecem nas quebradas, nas escolas, nas comunidades, nos becos, nas vielas praticado por jovens que com suas poesias competem entre si de maneira muito saudável, muito poética e muito virtuosa, com temas que questionam a desigualdade promovida pela sociedade. 

Temos também os saraus que acontecem nas periferias, geralmente em bares, escolas, associações e outros pontos de cultura, onde poetas se encontram para celebrar a poesia e compartilhar seus textos. 

Os saraus foram criados para reunir pessoas e reorganizá-las, com objetivo de resolver questões que atingem a todos. Mas, nesses encontros, a poesia tomou conta e ocupou seu espaço, houve empoderamento a partir da palavra; pessoas que não sabiam que eram artistas começaram a se manifestar. Ex: Um cobrador de ônibus que é poeta, um pedreiro que é cantor, um faxineiro que é artista de circo, um motorista de aplicativo que é ator, enfim, muitas pessoas passam a exercitar a arte a partir dos espaços culturais que foram criados dentro da periferia.  

Surgiram também cineastas, pessoas que se dedicaram a trabalhar com audiovisual registrando questões da quebrada. No audiovisual é possível entender o olhar que cada diretor tem sobre os assuntos abordados; problemas nas comunidades, transporte, racismo, homofobia, misoginia, etc…  

Lembrando que, infelizmente, audiovisual na periferia não é entretenimento, ainda é denúncia, ainda é usado como forma de protesto.   

Entre esses trabalhos de audiovisual destaco o Projeto Acolhendo Histórias do diretor Daniel Alexandrino, que produz junto ao coletivo Sarau do Grajaú documentários dos reais e verdadeiros heróis da nossa quebrada; também contando histórias dos territórios e suas formações; onde mostra músicos, poetas, atores e educadores que fazem a diferença. 

O Projeto Acolhendo Histórias começou em 2023 e na sua primeira temporada produziu 09 (nove) filmes. 

Os filmes produzidos foram: Parelheiros, Ilha do Bororé, Marsilac, Educação por Sônia Vieira, Ocupação Grajaú, com as educadoras Tamires Marinho e Chris Moreira, Mano Moneys,   Zé Kabala,  Jéssica Angelin e Até o Grajaú, homenagem aos 10 (dez) anos do Sarau do Grajaú, movimento poético   político de grande influência na região da Zona Sul. Hoje o Projeto Acolhendo Histórias, já na sua segunda temporada, produziu 04 (quatro) filmes: Liberto Solano, Professor Betinho, Lucimeire Juventino e Professor Edmilson.  

O próximo filme a ser produzido pelo Coletivo Sarau do Grajaú será  Acolhendo Histórias do Poeta Casulo, funileiro de profissão, criador e responsável pelo Projeto CLAMARTE.  

É a periferia mostrando ser possível, ser capaz, ser resiliente.  

Não há barreiras para a arte.  

Não há barreiras para a criação. 

Imagens: Acervo pessoal do autor

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