As consequências de uma infiltração são diversas e o livro de Carla Madeira pode provar

É comum ouvirmos falar sobre a doçura de Oxum, orixá do amor e da fertilidade. Oxum é água que corre na terra e foram nas palavras de pai Rodney de Oxóssi (antropólogo, escritor e babalorixá) que entendi que Oxum, além de afeto, pode ser fúria.

Em um documentário chamado Caminho dos Orixás, pai Rodney diz “nunca se deixe levar pela aparência doce de Oxum, ela pode ser muito mais perigosa do que demonstra”. No vídeo, pai Rodney chama nossa atenção para a diferença entre a água que corre sobre a terra e a água que corre sob a terra. A água que corre sobre a terra geralmente corre tranquila e mata nossa sede. A água que corre sob a terra é aquela que encharca, infiltra e causa destruição.

O livro de Carla Madeira, TUDO É RIO, é assim. É Oxum. Quando começamos a leitura temos a sensação de que encontraremos águas fáceis de navegar. Em despretensiosas 200 páginas de letras apertadas, o enredo parece tranquilo e até meio clichê (ainda que a primeira palavra do texto seja puta seguida de um ponto final): um triangulo amoroso formado por um marido e uma esposa, atravessados por uma tragédia, e uma prostituta que se insere nesse caminho de dor.

Mas o livro é Oxum e tem muita água infiltrada por debaixo dessa superfície aparentemente navegável. A trajetória de Venâncio, Dalva e Lucy é água que não escore. Água acumulada. Água que, em seu excesso, desaba. 

Desaba na certeza de que, depois de uma tragédia, nada volta a ser como era antes. Aliás, quando é que as coisas voltam a ser como eram antes? Desaba na compreensão de que o luto é justamente a certeza de que nada volta a ser como era antes. E que o tempo de encharcar e desabar e se transformar em outra coisa é imprevisível e particular. 

“Quem vê de fora faz arranjos melhores, mas é dentro, bem no lugar que a gente não vê, que o não dar conta ocupa tudo”.

Venâncio e Dalva estão ali para nos mostrar que a vida não continua. É impossível fingir que nada aconteceu, colocar outra pessoa no lugar de quem partiu ou retomar do ponto onde se havia estado antes da dor. Estão ali também para nos mostrar que dá sim para escrever outras histórias. Ora iê iê ô, TUDO É RIO. 

Imagem: Renata Gibelli