Cultura, memória e resistência nas ruas de Americanópolis. Por Grupo de Capoeira Novas Raízes

No domingo 3 de agosto, as ruas de Americanópolis foram palco da primeira edição do Ginga no Asfalto, evento realizado pelo grupo Novas Raízes em homenagem ao Dia da Capoeira, celebrado oficialmente em 3 de agosto, conforme a Lei Estadual nº 4.649/1985.

Com foco na valorização da capoeira como expressão cultural e instrumento de transformação, o encontro reuniu capoeiristas, famílias, coletivos culturais, moradores e apoiadores do território. Foi um cortejo construído passo a passo, onde cada grupo somado era como o encontro das águas — imagem usada por uma das companheiras — trazendo força, mistura e movimento.

A concentração começou na Casa Delas, com o grupo de mulheres capoeiristas das quartas-feiras e convidades. A elas se juntou a turma de sábado, que veio caminhando desde a comunidade São Judas. No trajeto, o grupo ganhou mais gente: crianças do CEJOLE, participantes da Capoterapia e integrantes do Projeto Cerejeira, que receberam o cortejo com fogos de artificio e água fresca.

A cada parada, os instrumentos ecoavam e o chão se tornava roda. Berimbaus, pandeiros e cantigas ancestrais marcaram a caminhada como espaço de memória e continuidade. Em muitos momentos, moradores se somaram espontaneamente, cantando, batendo palmas, reconhecendo a capoeira como parte de sua própria história.

Durante o percurso, aconteceram paradas com reflexões que homenagearam mulheres negras fundamentais para a história da capoeira:

Na saída, falou-se sobre o caminho das mulheres na capoeira, que seguem rompendo barreiras e criando novas formas de estar nas rodas.

Na primeira parada, lembramos Maria Conga, rainha africana escravizada e fundadora de um quilombo. Capoeira é liberdade.

Na segunda, homenageamos Rosa Palmeirão, que enfrentou repressão mesmo durante o parto. Capoeira é resistência.

Na terceira, celebramos Maria Salomé e Maria dos Anjos, que mantiveram a roda viva com samba, laços e afeto. Capoeira também é comunidade.

O cortejo foi mais do que uma caminhada: foi um espaço onde corpos e histórias se encontraram. A diversidade de idades, gêneros, religiões e trajetórias, mostrou que somos uma comunidade em construção, conectada por laços de memória, luta e pertencimento.

A chegada à quadra foi em clima de festa. A programação incluiu um aulão de capoeira aberto, leitura de poesia com Marlene Gerônimo, apresentações das oficinas de violão da Casa Delas, roda de atabaques com o grupo Kaluanā e uma grande roda de capoeira para todes.

Também houve entrega gratuita de livros, promovida pela Rádio Poste, criando um momento de partilha e acesso à leitura.

A condução ficou por conta de Zuca Fonseca e o encerramento teve a fala de Mestra Pantera, idealizadora do projeto, que reforçou a capoeira como ferramenta de educação, resistência e transformação social.

O Ginga no Asfalto mostrou que capoeira não é só jogo: é caminho, história e encontro. Um ato coletivo que afirma a cultura popular como base viva do nosso território.

Seguimos juntos. Que venham outras edições, com mais passos, mais vozes e mais presença nas ruas.

Axé!

Imagem: Ginga no Asfalto