Por Sidnei Reinaldo dos Santos

“O homem alienado daquilo que produz, mesmo criando os
Detalhes do seu mundo, está separado dele. Quanto mais
sua vida se transforma em mercadoria, mais se separa dela.”
(DEBORD, Guy; A sociedade do espetáculo. pág. 27 – 2003)

INTRODUÇÃO

Uma grande polêmica está presente principalmente nos países ditos desenvolvidos e, que gera extrema violência, é o ataque xenofóbico às minorias que adentram nos territórios nacionais das nações ricas. Aqueles que tentam uma oportunidade em outras localidades, se deslocando de um lugar para o outro, seja de forma temporária ou permanente, conforme as necessidades impostas, são tratados como uma ameaça aos empregos e políticas sociais, sobretudo por políticos conservadores ávidos por um discurso que atinja as massas. 

Esse deslocamento populacional tem diferentes razões – busca de trabalho, necessidade de assistência médico-hospitalar, estudos – e provoca transformações socioespaciais, miscigenação e o encontro multicultural, salutar à humanidade. Isso ocorre desde os primeiros agrupamentos humanos e tem contribuído para a própria sobrevivência do ser humano. 

Todas as pesquisas arqueológicas indicam que os primeiros hominídeos surgiram na África, cerca de 2 milhões de anos atrás. A partir daí, se espalharam pelo mundo, percorrendo longas distâncias em busca dos recursos para atender as suas necessidades de sobrevivência. Avançaram para o sul da África, se espalharam pela Europa, atravessaram os Monte Urais e, após suportarem as baixas temperaturas da Sibéria, alguns entraram no Continente Americano pelo Estreito de Bering. Outros adentraram a América por pequenas embarcações e conquistaram a América do Sul. Em centenas de milhares de anos, ocupavam todos os espaços do planeta. Houve adaptação às condições climáticas – das altas temperaturas dos desertos e nas baixas latitudes às áreas gélidas dos polos (Ártico e Antártico) e frio de montanhas – e a oferta de alimento, o que modificou a pigmentação da pele, formação da mandíbula, estrutura óssea e altura. O que estimulou o deslocamento desses povos foi a pouca alimentação, falta de água ou riscos a sua segurança. O conceito de migração ainda não estava posto porque a terra não tinha donos e as pessoas amos. A luta inicialmente era pela sobrevivência era para salvaguardar a espécie e não para fugir da exploração desumana do capitalismo.

O relato mais conhecido sobre o primeiro grande fluxo migratório é o êxodo, onde nos é apresentada a história de Moisés e o relato da saída dos israelitas do Egito em busca da Terra Prometida. Liderados por Moisés, o povo abandona uma vida de escravidão, seguindo a crença em Deus e de uma vida melhor. O faraó, respeitando o modelo de sociedade da época, abusou na medida das ações e causou indignação nos israelitas. A escrita desse livro é atribuída a Moisés, um dos capítulos do livro sagrado dos judeus e cristãos. Nesta epopeia, valores éticos defendidos por judeus pululam do mundo transcendental e adornam rochas – simbolizados nos Dez Mandamentos.

As Cruzadas – guerras religiosas – e as grandes navegações impulsionaram os fluxos migratórios. De maneira espontânea, como para presbíteros da Grã-Bretanha – que desembarcaram nas Américas e na Oceania -, fugindo como os portugueses da França de Napoleão Bonaparte ou africanos caçados em suas terras para serem escravizados. Os povos originários americanos e australianos foram subjugados, tendo sua cultura constantemente ameaçada.

OS FLUXOS MIGRATÓRIOS NO BRASIL

“Quando eu morrer/Cansado de guerra
Morro de bem/Com a minha terra:
Cana, caqui, Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim vamos embora”
(BUARQUE, Chico; SARAMAGO,
José; SALGADO, Sebastião;
Assentamento, in Terra. 2007)

Em Terras Tupiniquins, os fluxos migratórios sempre estiveram associados aos ciclos econômicos. A exploração do pau-brasil e o uso de mão de obra escravizada indígena. A cana-de-açúcar e o tráfico negreiro. A descoberta de jazidas, primeiro no atual centro-oeste e posteriormente nas Minas Gerais (particularmente em Vila Rica, Sabará, Vila do Carmo, Vila Nova Rainha do Caeté), o ciclo do café – o ouro negro – e seu espetacular mercado consumidor. Por fim, o processo de industrialização na região sudeste, sobretudo em São Paulo.1 Nos últimos anos, com o processo de globalização, o setor secundário da economia brasileira – transformação de matéria-prima em bens de consumo e bens de produção – perdeu espaço para as atividades ligadas ao setor terciário – comércio, logística (transportes e armazenamento), turismo e prestação de serviços. Juntamente com a descentralização da atividade industrial e as atividades ligadas ao turismo, convivemos com a migração de retorno, ou seja, muitos cidadãos brasileiros retornam para seus estados de origem em busca de oportunidades.

REFLEXOS DA COLONIZAÇÃO DE EXPLORAÇÃO

Nos tempos atuais, diferentes agrupamentos buscam oportunidades no centro do capital. Contudo são tratados como cidadãos de segunda classe. Muitos, mesmo com formação universitária e até mesmo pós-graduação, se submetem a subemprego. Entram em países ricos sem a documentação necessária e precisam viver à margem da sociedade, temerosos com uma possível deportação. Nesta situação, ou encontram solidariedade com a classe trabalhadora local, consciente de sua posição na sociedade, ou são mega explorados pela burguesia, ou, ainda mais triste, pela pequena burguesia, esta geralmente constituída de trabalhadores mais bem remunerados, mas vítimas de uma exploração crônica.

A tentativa de entrada sem a devida documentação gera uma violência àqueles que já estão em situação de vulnerabilidade. Subnutrição, falta de atendimento médico, exploração de policiais corruptos faz com que sejam ainda mais penalizados. Muitas vezes, a violência geralmente começa antes de adentrarem no novo território. Dezenas de crianças já morreram em tentativas de atravessar o Mar Mediterrâneo. São manchetes de jornal no dia seguinte e entram para o anonimato nesta sociedade do entretenimento. A morte surge como um espetáculo para uma sociedade sem valores morais. É o suplicio de inocentes usado para atrair “likes” ou acalentar-se com o fato de seus entes queridos estarem seguros sob um teto.

Situação semelhante atinge latinos que querem entrar nos Estados Unidos da América pela fronteira com a República do México. Lucros apenas para os “coiotes”,2 os quais enriquecem com aqueles que colocam sua vida em risco em busca de melhores condições de vida. No livro do êxodo não há relatos de quantos israelitas morreram, mas muitos devem ter sucumbido na tentativa de liberdade. Hoje temos dados atualizados da pena de morte àqueles que já cumprem pena de vida.3

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como apontamos, desde os primeiros humanos que há migração. A migração permitiu o desenvolvimento de um sistema biológico capaz de se adaptar a diferentes agressões de bactérias e vírus. Levou ao fortalecimento de nossos membros, da visão, da audição e do olfato. Deixamos marcas por onde passamos e isso comprova que já há centenas de milhares de anos estávamos espalhados pelo planeta.

Mas, se os fluxos migratórios sempre estiveram presentes na história do Homem, por que atualmente, com as relações econômicas internacionalizadas e uma ampla legislação normatizando a circulação de pessoas, há uma violência crescente contra migrantes? A resposta é simples: os interesses individuais se sobrepõem a lógica de solidariedade. Desde quando os primeiros indivíduos cercaram a terra e se declararam proprietários, surgindo assim diferentes classes sociais – escravizado-homem livre, senhor feudal-servo, burguês-trabalhador – fomentando a Luta de Classes e, consequentemente, dando contornos deploráveis à exploração, o coletivo foi posto de lado pelos detentores do poder – hoje a Burguesia. 

As condições dos migrantes, seja por livre decisão, como os brasileiros nordestinos que por vezes são vítimas de xenofobia no Sul e Sudeste do país; seja aqueles que buscam melhores condições de vida no centro do capital, latinos em direção aos Estados Unidos ou africanos que tentam cruzar o Mar Mediterrâneo e se estabelecer nas antigas metrópoles; seja os expulsos de sua terra natal por catástrofes naturais – o terremoto no Haiti em 2010 – ou pela ganância capitalista desejosa de áreas ricas em recursos naturais ou necessárias para a circulação de embarcações – Afeganistão, Irã, Palestina – requerem a devida atenção de todos nós. Acredito que o êxodo palestino na Faixa de Gaza seja o movimento migratório que requer mais solidariedade atualmente, mas não podemos deixar de atentar à crescente perseguição de migrantes em todos os lugares do mundo – sobretudo Estados Unidos e Europa. Governos de extrema direita, de cunho fascista, buscam culpados para sua incompetência e miram os migrantes – Hitler perseguiu principalmente judeus; Trump mira os latinos.

A perseguição de imigrantes pelo governo estadunidense – tanto no primeiro governo (2017-2020), quanto no atual (iniciado em janeiro/2025) – mostra o acirramento da xenofobia, isto é, perseguição ao diferente. O american dream,4 alardeado por décadas e do qual o próprio Donald Trump se beneficiou, virou uma quimera. Prisão de imigrantes, separação de famílias, extradição de trabalhadores algemados, repressão … o monstro capitalista, sempre cruel, mostra as suas garras. A violência contra estrangeiros, amenizada nos governos Democratas, é implacável no governo Republicano. Não é interesse da burguesia internacional dividir os milhões que acumulou e acumula. Os bilionários financiam campanhas eleitorais daqueles que os beneficiarão com leis que lhes permitam explorar ainda mais os trabalhadores.

A Classe Trabalhadores precisa de voz para garantir moradia, alimentação, atendimento médico e possibilidades de começar nova vida ou permanecer enquanto quiser, seguindo para outras localidades ou retornando ao país de origem, quando as condições assim possibilitarem. E para aqueles que estão distantes, denunciarmos sua situação e, juntamente com o conjunto de trabalhadores de todo o mundo, reduzir a força de deus algozes. As classes sociais devem ser superadas para que realmente todos sejam realmente livres. A classe trabalhadora somente encontrará a liberdade no socialismo.

Referências e mais informações

  1. A população paulista que aparecia em 4º lugar nos anos 1870, saltou para o primeiro lugar, desde a década de 1920. ↩︎
  2. Coiotes (coyotes), pollerospateros ou balseros – são pessoas e grupos organizados que se especializaram em guiar os migrantes que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos. ↩︎
  3. Parafraseando Max Gonzaga na música Classe Média. ↩︎
  4. American Dream (sonho americano, em livre tradução) é um termo cunhado pelo historiador e escritor James Truslow Adams no livro chamado Epic of America, best-seller de 1931, em que exaltava a crença de qualquer pessoa, independentemente do lugar em que nasceu e da sua classe social pode alcançar a sua própria versão de sucesso em uma sociedade em que a mobilidade ascendente é possível para todos, ideia muito comum nos Estados Unidos, onde as pessoas tendem a acreditar que a prosperidade seja alcançada por meio do sacrifício, do trabalho árduo e da tomada de riscos e não por acaso. Esse tema, aliás, já foi abordado em músicas, filmes, livros, séries e documentários durante os anos. (adaptado) ↩︎

Imagem: Registro de arte rupestre dos primeiros habitantes da Serra da Capivara (São Raimundo Nonato/PI). Foto de julho/2022. Acervo do autor