Em pleno século XXI, mulheres negras, periféricas e trabalhadoras seguem sustentando o Brasil sob invisibilidade, racismo e sobrecarga.

No calendário oficial, o 1º de Maio é o Dia da Trabalhadora e do Trabalhador. Na vida real, para milhões de mulheres no Brasil, esse dia é uma lembrança dolorosa da desigualdade, do cansaço acumulado e da resistência cotidiana. É também um convite à escuta. Por isso, nesta edição da Coluna Nosso Lugar de Fala, potencializamos a voz de trabalhadoras do nosso território. Suas falas integram uma mesma realidade marcada por sobrecarga, precarização e invisibilidade – especialmente para mulheres pretas, pobres, mães e periféricas.

O que dizem as mulheres

“Pra mim, é dia de força, mas também de tristeza, porque a gente vê que nada muda.” – Maria Aparecida dos Santos, diarista.

“O Capital exige que mulheres trabalhem como se não tivessem que maternar e maternem como se não tivessem que trabalhar.” – Maria Joaquina Fernandes, assistente social.

“Tô cansada de ser julgada por tentar viver.” – Juliana Oliveira, balconista.

“A relação com trabalho em uma sociedade capitalista para mulheres como eu é de sobrevivência.” – Yole Alves, assistente social.

Essas vozes são espelho de milhões de outras. Segundo a PNAD Contínua (IBGE, 2023), as mulheres são 48,5% da força de trabalho no Brasil, mas concentram os postos mais precarizados. São também maioria entre os desempregados e subocupados. Entre elas, as mulheres negras enfrentam o pior cenário: recebem 58% do rendimento de homens brancos exercendo a mesma função.

A crise tem cor, gênero e território

Nos últimos anos, as políticas públicas que protegiam minimamente as trabalhadoras vêm sendo desmontadas. Em São Paulo, a terceirização avança sobre os serviços públicos. Na Assistência Social, onde a maioria das profissionais são mulheres, há sobrecarga, salários defasados e metas incompatíveis com a realidade das famílias atendidas. Na saúde e educação, contratos temporários e falta de estrutura comprometem o cuidado – tanto de quem trabalha quanto de quem é atendido.

O que querem as mulheres trabalhadoras?

As entrevistas são uníssonas: creches públicas, salários justos, tempo para viver e respeito às maternidades. Como disse Yole Alves, “não é possível promover mudanças no mundo do trabalho com o atual modelo societário”. Maria Joaquina propõe a valorização do trabalho de cuidado como um bem social a ser remunerado. Juliana pede creche perto de casa. Maria Aparecida quer poder estudar e ser reconhecida.

Essas demandas não são individuais: são estruturais. O 1º de Maio precisa deixar de ser apenas data simbólica e se tornar plataforma de luta real. Uma luta feminista, antirracista e popular – como as mulheres que aqui falam e resistem.

Em territórios periféricos, são elas que saem de madrugada, atravessam a cidade, trabalham em serviços essenciais — quase sempre mal remunerados —, cuidam da casa, dos filhos e da comunidade. Muitas vezes sem direitos garantidos, mas com uma força coletiva que sustenta o cotidiano de milhões.

Acessamos quatro mulheres que vivem essa realidade todos os dias. Elas compartilham não só suas dores e desafios, mas também suas esperanças e propostas de mudança.

Conheça suas histórias:

Juliana Oliveira
Idade: 24 anos
Gênero: Mulher
Cor/raça: Parda
Cidade onde nasceu: São Paulo – SP
Cidade onde mora: São Paulo – SP

  1. O que significa, para você, o Primeiro de Maio hoje?
    Para mim é um dia que a gente lembra o quanto é difícil ser trabalhadora nesse país. Eu nem paro no feriado, às vezes estou no mercado, às vezes em casa com as crianças doente. É dia que a gente pensa que queria ter mais direito, mais apoio, porque sozinha com três filhos, tudo pesa. Não é só um feriado, é um dia pra lembrar que a gente batalha demais e ganha de menos.
  2. Como tem sido sua relação com o trabalho? Quais os desafios que você enfrenta ou já enfrentou por ser mulher?
    É puxado. Eu trabalho de balconista no mercado aqui do bairro, pego pesado, fico de pé o dia todo, e quando chego em casa tem mais trabalho ainda com as crianças. Não tenho com quem contar, o pai deles sumiu, não dá um real. Minha mãe ajuda, mas vive reclamando que eu saio ou chego tarde. Tem dia que eu choro de cansaço. No serviço também é difícil, o povo julga, fala que mãe solteira é desorganizada, que vive faltando. Ninguém entende que às vezes é febre, é falta de quem deixar, é vida real.
  3. O que você gostaria que mudasse no mundo do trabalho para que mulheres como você tivessem mais dignidade e reconhecimento?
    Eu queria que tivesse creche boa, de verdade, perto de casa, para eu trabalhar em paz. Queria salário melhor, porque o que ganho mal dá para a comida, fralda, aluguel. E queria que respeitassem mais a gente, mãe nova, mulher sozinha, como se a gente fosse forte demais para sentir cansaço. Estou cansada de ser julgada por tentar viver. A gente só quer criar nossos filhos com um pouco mais de sossego.

Maria Joaquina Fernandes de Castro Silva
Idade: 40 anos
Gênero: Feminino
Cor/raça: branca
Cidade onde nasceu: Macedônia
Cidade onde mora: Diadema

  1. O que significa, para você, o Primeiro de Maio hoje?
    Dia de memória coletiva da luta e resistência da classe trabalhadora.
  2. Como tem sido sua relação com o trabalho? Quais os desafios que você enfrenta ou já enfrentou por ser mulher?
    O trabalho é o condicionante para minha sobrevivência e acesso a uma vida digna. A maior parte dos meus direitos humanos (de alimentação, habitação e tantos outros) também são acessados a partir do trabalho. Porque minha realidade não representa a realidade da maioria das pessoas. Há um contingente imenso de gente que não tem acesso ao trabalho e, por consequência, não tem acesso aos seus direitos.
    Hoje o trabalho ocupa mais do meu tempo de vida que eu gostaria e sobrepõe ao tempo (escasso) que eu tenho pra minha família, para o descanso, lazer e ócio.
    O capital exige que mulheres trabalhem como se não tivessem que maternar e maternem como se não tivessem que trabalhar. É uma conta que nunca fecha pra nós mulheres. Mas esse mesmo sistema é diferente com os homens. O tratamento é desigual e injusto.
  3. O que você gostaria que mudasse no mundo do trabalho para que mulheres como você tivessem mais dignidade e reconhecimento?
    O exercício do cuidado materno que é fundamental para o desenvolvimento humano e da sociedade deveria ser remunerado. Já que o capital nos imputa a responsabilidade do cuidado como se fosse exclusiva a nós mulheres, deveria ao mínimo garantir condições de trabalho compatíveis e diferenciadas para todas nós.

Yole Alves de Brito
Idade: 44
Gênero: feminino
Cor/raça: preta
Cidade onde nasceu. SP
Cidade onde mora. Diadema

  1. O que significa, para você, o Primeiro de Maio hoje?
    Movimento de luta para a classe trabalhadora no contexto de uma sociedade capitalista, que tem como principal marcador a desigualdade social, com recorte de raça e gênero.
  2. Como tem sido sua relação com o trabalho? Quais os desafios que você enfrenta ou já enfrentou por ser mulher?
    Atravessamentos por ser mulher e sobretudo mulher preta periférica. Os desafios foram inúmeros e permanecem. Quero destacar o processo de formação profissional, a partir da trajetória de luta e sacrifício para ingressar na universidade, para ser aceita no mercado de trabalho, a maternidade etc.
    A relação com trabalho em uma sociedade capitalista para mulheres como eu é de sobrevivência.
  3. O que você gostaria que mudasse no mundo do trabalho para que mulheres como você tivessem mais dignidade e reconhecimento?
    Mudança do atual modelo social, o qual prevê um estado mínimo na esfera social e prioriza as relações de mercado. O qual tem em sua lógica a manutenção e crescimento das desigualdades sociais e raciais. Não é possível promover mudanças no mundo do trabalho com o atual modelo societário, as relações de trabalho estão cada vez mais desumanizadas, precarizadas e arbitrárias, principalmente para as mulheres pretas.

Esses relatos revelam, de forma potente, como o trabalho atravessa a vida das mulheres de maneiras profundamente desiguais — marcadas por classe, raça, maternidade e acesso a direitos. Apesar das diferenças nas trajetórias, todas expressam a exaustão física e emocional imposta por uma sociedade que ainda desvaloriza o trabalho das mulheres, sobretudo o trabalho das mães e das mulheres negras e periféricas. Ao mesmo tempo, suas falas evidenciam não apenas as dores, mas também as potências: a clareza sobre o que precisa mudar e a força para seguir lutando por dignidade e reconhecimento.

Esperança como ato de resistência

Apesar da sobrecarga e das injustiças estruturais, essas mulheres seguem sonhando. E esse sonho é a faísca que acende mudanças reais. Lutam por creches públicas, por mais tempo livre, por respeito no transporte, por representatividade e renda digna.

O Primeiro de Maio não deve ser visto apenas como um dia de festa, e sim de lembrar o caminho percorrido, celebrar vitórias e provocar reflexões que nos impulsionam a mudar o que ainda precisa ser transformado. Um dia para reafirmar nossa força coletiva e a possibilidade de outro mundo, onde a vida digna para todas as pessoas esteja no centro. 

Referências e mais informações

Filmes
Que Horas Ela Volta? (2015, Anna Muylaert)
As Sufragistas (2015, Sarah Gavron)
Mulher Rei (2022, Gina Prince-Bythewood)

Livros
Mulheres, Raça e Classe – Angela Davis
O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir
O Que é Lugar de Fala? – Djamila Ribeiro

Imagem: Coletiva de Mulheres

One thought on “1º de Maio: Vozes das Mulheres que Sustentam o Brasil”
  1. Reportagem absolutamente necessária!
    Muito boa e bem feita.
    Expresso Periférico como sempre atento e atuante.
    Abraços.

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