Por Marcha Mundial das Mulheres – Núcleo Sudeste da Capital de São Paulo
Mais um 08 de Março – Dia Internacional de Luta das Mulheres se aproxima e nos convida para a árdua tarefa de, mais uma vez, debater o seu real significado. É dia de homenagem e de festa, mas principalmente de luta e de reafirmação dessa luta.
Na atual conjuntura brasileira e mundial, de avanço de forças neoliberais predatórias e fascistas, forças essas de caráter antidemocrático, misógino, racista, LGBTQIAP+fóbico, anti-intelectualista e violento, relembrar as origens e tratar dessa emblemática data de luta das mulheres se torna ação de resistência, ação de tomar para nós os espaços que nos estão sendo retirados. É retomar e reafirmar o protagonismo da luta das mulheres na história ao combater o esvaziamento e a mercantilização da data e o apagamento das mulheres enquanto sujeitas construtoras da história.
“Porque há, há muito tempo, uma tentativa não só de transformar essa data em mais uma data comercial, mas também de esvaziar e destituir a data de todo seu profundo significado e herança de protagonismo das mulheres.”
Mas por que falamos em esvaziamento e mercantilização da data e em apagamento das mulheres? Porque há, há muito tempo, uma tentativa não só de transformar essa data em mais uma data comercial, mas também de esvaziar e destituir a data de todo seu profundo significado e herança de protagonismo das mulheres. A narrativa que há muito vem sendo grandemente difundida sobre suas origens é a história do suposto incêndio em uma fábrica têxtil em Nova York, causado pelo próprio proprietário em resposta a uma declaração de greve das funcionárias, em março de 1908. Contudo, pesquisas documentais, como a realizada por Ana Isabel Álvarez González em seu livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres” (publicado pela editora Expressão Popular em parceria com Sempreviva Organização Feminista-SOF, pela primeira vez em março de 2010), mostram que não existem registros históricos de tal acontecimento ocorrendo na data específica do 08 de março de 1910, em nenhuma cidade dos Estados Unidos. A autora destaca que esse incêndio de fato existiu (inclusive ressalta que esses incêndios não eram um fato isolado nas instalações fabris dos EUA no início do século XX), contudo, não na data supracitada. O incêndio ocorreu, segundo a autora, em 23 de março de 1911, causando a morte das operárias que, um ano antes, isto é, em 1910, haviam protagonizado a primeira greve realizada exclusivamente por mulheres reivindicando melhores condições de trabalho. Tal evento foi marcante na história do movimento de mulheres operárias dos EUA, porém, não está vinculado à proposição de um dia de luta das mulheres e nem à definição de uma data específica para a sua comemoração. Assim, a narrativa do incêndio como motivador da criação de um dia em homenagem às mulheres, então, não só deturpa os fatos históricos, como também tira o protagonismo de luta das mulheres, que há anos vinham se organizando e se manifestando por melhores condições de vida e de trabalho.
“Foi um momento de grande organização do movimento socialista em vários países e é nesse contexto de muitos debates e conflitos que as mulheres socialistas se organizaram em busca de formar um movimento capaz de combinar a luta pela libertação das mulheres com a luta pela transformação da sociedade.”
Havia, no período entre o final do século XIX e o começo do século XX, toda uma efervescência ocorrendo no mundo todo, efervescência essa encabeçada pelas mulheres. Foi um momento de grande organização do movimento socialista em vários países e é nesse contexto de muitos debates e conflitos que as mulheres socialistas se organizaram em busca de formar um movimento capaz de combinar a luta pela libertação das mulheres com a luta pela transformação da sociedade. A história da fábrica ignora esse contexto e transforma as mulheres em meras vítimas que, por tanto sofrerem, merecem um dia de homenagem. É um esforço de destituir a data de toda sua origem operária, socialista e feminista, de todo seu caráter político.
“A história da fábrica ignora esse contexto e transforma as mulheres em meros mártires que, por tanto sofrerem, merecem um dia de homenagem. É um esforço de destituir a data de toda sua origem operária, socialista e feminista, de todo seu caráter político.”
A ideia (proposta por Clara Zetkin, professora, jornalista e política marxista alemã) e a aprovação de um dia universal dedicado especificamente à luta das mulheres ocorrem na Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague em 1910, com inspiração no Woman’s Day (Dia da Mulher) – organizado pelas socialistas dos Estados Unidos. Tais comemorações, organizadas pelas militantes socialistas, ocorriam em dias diferentes a cada ano nos diferentes países e eram orientadas prioritariamente pela reivindicação do direito ao voto. O Dia Internacional da Mulher não era, ainda, aquele que conhecemos hoje. O Dia Internacional de Luta das Mulheres, tal como o conhecemos hoje, celebrado no mundo todo especificamente no 08 de março, teve origem com as manifestações das mulheres na Rússia, no dia 08 de março de 1917 (dia 23 de fevereiro segundo o calendário Juliano [que era o calendário oficialmente utilizado pelo Estado na época[1]] – Dia das Mulheres Trabalhadoras).
Segundo Ana Isabel (2010), nesse dia, as mulheres operárias saíram às ruas de Petrogrado (atual São Petersburgo) protestando contra a alta dos preços e a escassez e por melhores condições de vida e trabalho (lembrando que nesse momento o mundo passava pela 1ª Guerra Mundial). Com o decorrer da marcha, foram se juntando a elas outras mulheres, como as soldatki (esposas, filhas e irmãs de soldados) e as donas de casa que faziam fila para buscar sua ração de pão. Explodia, então, uma revolta acumulada contra a guerra, a fome e a repressão do regime czarista. No dia seguinte, o número de mulheres na rua chegou a 190 mil, e nem os soldados, nem os cossacos[2] se atreveram a investir contra elas.
No dia 10 de março, a greve já era geral. No dia 12, os revolucionários instauraram o Soviet (Conselho dos Operários) de Petrogrado, que passou a ser o centro de coordenação do movimento. No dia 14, o Governo Provisório foi criado, e no dia 17, com o exército ao lado dos revolucionários, o czar Nicolau II renunciou e a Rússia se converteu em uma república. Então, foi a mobilização das mulheres, o movimento que colocou em marcha o processo que levou à Revolução Russa de 1917, um dos maiores marcos históricos da modernidade.
Assim, foi para relembrar a ação das mulheres na história da Revolução Russa que, na 2ª Conferência de Mulheres Comunistas (que coincidiu com o 3º Congresso da Internacional Comunista), em 1921, por iniciativa das representantes búlgaras, foi proposto e aprovado que o Dia Internacional da Mulher passasse a ser comemorado no dia 08 de março de forma unificada, no mundo todo. Nesse sentido, o Dia Internacional de Luta das Mulheres se tornava uma data de homenagem, mas também de agitação e mobilização das mulheres, para que a revolução tivesse êxito em escala mundial.
Mas, com o passar dos anos, contudo, o significado do 08 de março foi sofrendo mudanças, principalmente a partir dos anos 1930, com a ascensão de Stalin na União Soviética, que transformou a data em uma celebração da maternidade.
“Essa história faz parte do passado político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista do começo do século XX. Recuperá-la, retomá-la e recontá-la é reafirmar a vanguarda do movimento de luta das mulheres dentro de uma luta pela transformação geral da sociedade. É consolidar o Dia Internacional das Mulheres como o símbolo da participação ativa das mulheres na transformação de suas vidas e da sociedade.”
Em 1975, a ONU (Organização das Nações Unidas) oficializou o dia 08 de março como Dia Internacional da Mulher, o que contribuiu para uma retomada do destaque do dia, muito embora também tenha incentivado um viés mais institucional à data. Assim, com o passar dos anos, com a queda da União Soviética e a consequente depreciação do socialismo (em vista da ascensão dos EUA como superpotência mundial), a história do 08 de março foi se perdendo, silenciando tanto a vanguarda do movimento de mulheres na Revolução Russa como seu caráter socialista e operário, na tentativa de transformar o Dia Internacional da Mulher em mais um evento de mercado, um dia de flores, de presentes e, claro, de reforço da feminilidade dita tradicional. Por isso, relembrar a história das mulheres socialistas é retomar o sentido da comemoração do Dia Internacional da Mulher. Essa história faz parte do passado político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista do começo do século XX. Recuperá-la, retomá-la e recontá-la é reafirmar a vanguarda do movimento de luta das mulheres dentro de uma luta pela transformação geral da sociedade. É consolidar o Dia Internacional das Mulheres como o símbolo da participação ativa das mulheres na transformação de suas vidas e da sociedade.
Assim, é da luta dessas tantas mulheres que vieram antes de nós que tiramos a energia e o amor para movimentar a nossa luta hoje, para caminhar em direção a um mundo em que já nasçamos livres. Mudar o mundo e a vida das mulheres em um só movimento!
Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!
Referências e mais informações
Imagem: Ato EleNão em outubro de 2018. Fotografia: Elaine Campos
[1] A Rússia só adotou o calendário Gregoriano (que é aquele utilizado pela grande maioria dos países hoje em dia) em 1918. O calendário Gregoriano está 13 dias à frente do Juliano. Hoje, embora o Estado Russo assume oficialmente o calendário Gregoriano, o Juliano segue sendo seguido principalmente em relação a datas celebrativas, como Natal e Ano Novo, pois a Igreja Ortodoxa Russa, predominante no país, não fez a transferência para o calendário gregoriano no início do século XX. Por isso, algumas festas são comemoradas duas vezes na Rússia, como o Ano Novo, que acontece no 1º de janeiro e também no 13 de janeiro.
[2] Os cossacos foram um dos povos que formaram a Rússia e se organizavam em uma espécie de democracia militarista. Com o passar do tempo, o governo russo foi reduzindo sua autonomia e eles se transformaram em regimentos de soldados. No século XIX, os cossacos desempenharam papel importante na expansão russa, servindo a diversos czares, inclusive lutando contra o Exército Vermelho na Guerra Civil que ocorreu após a Revolução de Outubro de 1917.