Quem Sofre Mais com as Mudanças Climáticas?

A segregação socioespacial é um fenômeno em que diferentes grupos sociais ocupam espaços urbanos de forma desigual, resultando em uma separação física e simbólica dentro das cidades. Essa segregação é marcada por fatores econômicos, raciais e culturais, onde as populações mais pobres e, historicamente, as minorias étnicas e raciais são relegadas a áreas menos privilegiadas, com menos infraestrutura e acesso limitado a serviços essenciais.

Esse fenômeno está diretamente ligado ao racismo ambiental e climático que ocorre quando comunidades marginalizadas, frequentemente compostas por pessoas negras, indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas, refugiadas e pobres, são mais afetadas pelos impactos negativos do meio ambiente, como poluição, falta de saneamento, enchentes e desastres naturais. Isso não é acidental; é o resultado de políticas urbanas, sociais e econômicas que, ao longo do tempo, favoreceram determinados grupos, relegando outros a condição de maior vulnerabilidade.

O Racismo Ambiental em Contexto

O termo racismo ambiental foi criado para descrever como comunidades de minorias raciais, especialmente as negras e indígenas, são desproporcionalmente impactadas pela degradação ambiental. Essas comunidades, muitas vezes, vivem próximas a áreas industriais, lixões ou em regiões com infraestrutura precária, onde há altos níveis de poluição, falta de acesso à água potável e saneamento básico inadequado. Essa exposição os coloca em maior risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e outras condições de saúde.

Um exemplo claro desse racismo é a localização de aterros sanitários e indústrias poluentes, que geralmente se encontram nas periferias de grandes cidades, onde vivem majoritariamente pessoas negras e pobres. O mesmo ocorre com a dificuldade de acesso a espaços verdes, água limpa e serviços básicos. Enquanto isso, os bairros mais ricos, geralmente ocupados por pessoas brancas, desfrutam de melhor infraestrutura, serviços e proteção ambiental.

Racismo Climático: Quem Sofre Mais com as Mudanças Climáticas?

O racismo climático é uma extensão do racismo ambiental e se refere à forma como as mudanças climáticas afetam de maneira mais severa as populações já vulneráveis. Eventos climáticos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor, atingem mais fortemente as comunidades marginalizadas. Essas populações, que já têm menos recursos, enfrentam dificuldades para se adaptar e responder a esses desastres.

As mudanças climáticas aumentam o risco de desastres naturais em áreas onde vivem populações negras, indígenas e pobres, que sofrem com a falta de infraestrutura adequada. Nas grandes cidades brasileiras, por exemplo, comunidades negras que habitam regiões periféricas ou áreas de risco (como encostas e margens de rios) são as primeiras a serem afetadas por enchentes, deslizamentos de terra e outros desastres ambientais. Enquanto isso, as áreas nobres possuem melhor infraestrutura para resistir a esses eventos, como sistemas de drenagem avançados e maior cobertura de vegetação.

O Impacto na Vida das Mulheres

Dentro desse contexto, as mulheres são afetadas de maneira ainda mais intensa, e devido às desigualdades de gênero e raça, as mulheres negras enfrentam múltiplas camadas de discriminação, o que torna sua situação mais vulnerável. Nas comunidades afetadas pelo racismo ambiental e climático, as mulheres negras são geralmente as principais responsáveis por cuidar de suas famílias e de suas casas, lidando diretamente com a falta de recursos, como água potável e saneamento básico.

Carga Desproporcional de Trabalho e Saúde

Essas mulheres, além de cuidarem de seus lares, muitas vezes precisam percorrer longas distâncias para buscar água ou alimentos de boa qualidade, pois vivem em áreas onde a infraestrutura é limitada ou inexistente. Em tempos de desastres naturais, como enchentes, as moradias periféricas estão mais propensas a serem destruídas, e o custo da recuperação é pesado. Além disso, elas enfrentam um risco maior de doenças devido à exposição a ambientes insalubres e à falta de serviços públicos de saúde eficientes nessas regiões.

A saúde mental dessas mulheres também sofre impacto significativo. A ansiedade e o estresse decorrentes da insegurança habitacional e dos desastres ambientais são uma constante, especialmente quando há a responsabilidade de proteger filhos e familiares. A combinação de condições de vida insalubres e discriminação estrutural aprofunda a exclusão social e o ciclo de pobreza.

Violência e Vulnerabilidade Econômica

Além disso, em contextos de crise ambiental, a violência de gênero também tende a aumentar. Pesquisas indicam que mulheres negras são mais vulneráveis à violência em situações de crise social e ambiental, onde as tensões sociais e econômicas se agravam. Elas também enfrentam uma maior dependência econômica, sendo muitas vezes responsáveis por sustentar suas famílias sozinhas em empregos precários e de baixa remuneração, o que as deixa mais expostas à precarização do trabalho em áreas afetadas por crises ambientais.

A segregação socioespacial materializada no racismo ambiental e climático não é apenas uma questão de desigualdade urbana ou de desenvolvimento insustentável, mas reflete um padrão de discriminação racial e de classe profundamente enraizado nas estruturas sociais. Esse padrão afeta, em particular, as mulheres negras, que enfrentam desafios adicionais em termos de saúde, segurança, emprego e condições de vida.

A busca por soluções para esses problemas passa pela criação de políticas públicas que não apenas visem a redução das desigualdades ambientais e climáticas, mas que reconheçam o impacto diferenciado que essas questões têm sobre mulheres negras e outras populações vulneráveis. Isso inclui o fortalecimento da infraestrutura em áreas periféricas, o aumento do acesso à educação e à saúde, e a garantia de que as comunidades marginalizadas tenham uma voz ativa nas decisões sobre o futuro de suas regiões e do meio ambiente.

Morro dos Macacos em Eldorado: um Reflexo do Racismo Ambiental

Outro exemplo marcante de racismo ambiental é o Morro dos Macacos, localizado no bairro Eldorado, na divisa entre São Paulo e Diadema. Essa comunidade enfrenta uma série de problemas que ilustram a exclusão social e o descaso do poder público em relação às áreas periféricas.

A região, habitada por cerca de 400 famílias, convive com a falta de infraestrutura básica, incluindo saneamento, coleta regular de lixo e sistemas elétricos adequados. Em julho de 2024, um incêndio devastou 19 barracos, deixando 21 famílias desabrigadas, reforçando o risco constante de tragédias agravadas por condições habitacionais precárias. Este foi o quarto incêndio em curto período, atribuído a instalações elétricas improvisadas, comuns em comunidades negligenciadas.

Além disso, obras de contenção de encostas iniciadas em 2023 trouxeram consequências inesperadas. Durante chuvas, a água misturada ao concreto das obras invade os barracos, encharcando o solo e aumentando o risco de deslizamentos em áreas já classificadas como de alto e muito alto risco pela Defesa Civil. A falta de planejamento adequado não apenas falhou em proteger os moradores, mas intensificou os perigos que enfrentam diariamente.

Impacto na Vida das Mulheres do Morro dos Macacos

Dentro dessa comunidade, as mulheres estão na linha de frente para enfrentar as adversidades. Muitas delas lideram famílias monoparentais e são as primeiras a lidar com as consequências das tragédias, como a busca por ajuda emergencial e a reconstrução de lares destruídos. A constante ameaça de incêndios e deslizamentos sobrecarrega essas mulheres, tanto emocional quanto fisicamente, ao mesmo tempo que limita suas possibilidades de buscar melhores condições de vida.

O Morro dos Macacos, como tantas outras comunidades periféricas, evidencia o racismo ambiental que invisibiliza populações negras e pobres, tornando-as mais vulneráveis a tragédias evitáveis. Isso reforça a urgência de políticas habitacionais e ambientais que tratem essas populações com a dignidade e o respeito que merecem.

Referências e mais informações

Segue uma dica de vídeo que explora o racismo ambiental, climático e seus impactos sociais: “Racismo Ambiental no Brasil” (Canal Meteoro Brasil).

Este vídeo apresenta uma análise acessível sobre o conceito de racismo ambiental e seus desdobramentos no Brasil, com exemplos de comunidades afetadas pela exclusão socioespacial.

Imagem: Expresso Periférico

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