Como reconectar a esquerda brasileira com a imensa maioria do povo brasileiro e, ao mesmo tempo, conciliar as propostas mais consequentes para atender a população?

Como reconectar a esquerda brasileira com a imensa maioria do povo brasileiro e, ao mesmo tempo, conciliar as propostas mais consequentes para atender a população, sendo que aquilo que interessa conflita-se com os limites da democracia burguesa.

A partir de meados dos anos 1980 grande parte da esquerda vislumbrou a real possibilidade de sentar-se à mesa e participar da democracia burguesa. Para tanto, abrimos mão de continuar imersos no meio popular e, consequentemente, construir uma alternativa à burguesia e sedimentar o poder popular. Estamos, portanto, pagando um preço que não foi adequadamente dimensionado: a direita brasileira nunca abriu mão do poder e quando, em algum momento, sente que a classe trabalhadora avança tenuamente ela resgata todas as possibilidades para tornar evidente que de fato está no poder.

A classe dominante brasileira, diferente do que ocorre em outros países, não é nacionalista, se constituiu e está umbilicalmente atrelada a interesses externos, particularmente, nesse momento histórico, aos Estados Unidos. Atribuir – lhe a condição de viralatismo é subestimar um projeto que historicamente sempre foi alinhado à dinâmica capitalista internacional, sendo estruturalmente parte da engrenagem que sustenta grandes corporações que possuem interesses estratégicos no Brasil. Para a classe dominante brasileira se apresentar como subalterna não implica em nenhum constrangimento e lhe garante proteção externa e a certeza que manterá o controle político, econômico e militar de um vasto território com uma imensa riqueza para perpetuar a supremacia de poucos. Neste sentido, o Brasil é uma dádiva, com recursos que bem explorados, podem perpetuar o extremo conforto da burguesia de plantão e seus associados. 

Por outro lado, a esquerda patina para construir uma avaliação crítica, tendo em vista que as nossas análises de conjuntura quase sempre aponta para o que pode acontecer sem considerar os equívocos na trajetória que, olhando a partir de aspectos macro, consolidou ganhos suportáveis na lógica minimalista de direitos concedidos aos setores populares: bolsa família e assistências diversas que não comprometem a estrutura de poder, o que enredou os setores populares e provocou um deslumbre, pois, nos fez acreditar que já estávamos na cozinha da burguesia. É fato que o pé na institucionalidade não deveria ser razão definitiva para abrir mão de nos fazermos presente no meio popular. Ações simples como: comitês populares por bairro(s)/região, com aluguel de espaço para desenvolver atividades políticas e culturais; constituição de estruturas para promover contato direto com a população (aparelhagem de som); publicação periódica de boletim com informações do território e educação política, constituir as frentes populares com real representação popular/ sindical, contribuiriam para consolidar uma base ampla de resistência para além dos limites que a institucionalidade burguesa impõe. 

Acreditar que elegendo mais um mandato para o Lula e, mesmo com uma correlação de forças mais favorável no congresso nacional, vamos empurrar a direita e a extrema direita para dentro da caixa é um equívoco que a esquerda comprometida com um projeto socialista não pode cometer. A direita compreendeu que ela é capaz de conspirar com apoio popular! Se apropriou exitosamente das mídias sociais, penetrou espetacularmente nas igrejas com um projeto sólido e eficaz, empoderou-se de uma extensa capilaridade nos meios de comunicação e mídias alternativas que dialoga com um público jovem e conta com o que é mais importante: o poder militar e o poder financeiro. O atual momento que a esquerda atravessa pode apresentar – se como uma oportunidade para deslocar o debate político que se dá em torno da crise gerada pelos Estados Unidos. 

É sabido que os desdobramentos do 08 de janeiro e os processos judiciais impostos à família Bolsonaro, por si só e isoladamente, não explicam a taxação do Brasil por parte dos EUA. Inviabilizar os Brics é o principal interesse da política trumpista e enquadrar o Brasil para submeter o Estado brasileiro aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos é parte de uma lógica que se repete onde países periféricos são inviabilizados em suas potencialidades com plena anuência da burguesia local e, no Brasil, com participação da extrema direita. Mas o que podemos fazer para construir a resistência numa dinâmica polarizada e tendo no STF e, principalmente na figura do ministro Alexandre de Morais, o principal baluarte da resistência aos ataques que o Brasil sofre via família/ direita bolsonarista? Vale lembrar que o STF é parte da estrutura onde está assentada a hegemonia burguesa no Brasil e, enquanto tal, não discorda do projeto político e, principalmente econômico que representa a burguesia. O jurídico brasileiro é garantidor da ordem para plena satisfação dos interesses da classe dominante brasileira. Portanto, não podemos nos iludir! O STF percebe que a extrema direita pode trazer intranquilidade desnecessária e perigosa tendo em vista que, no momento, a extrema direita liderada pela família Bolsonaro, está preocupada em demasia com seus próprios interesses. O que fazer no momento que as taxas impostas pelo governo Trump abre uma brecha para que o governo Lula saia das cordas e recupere o protagonismo no meio popular? Temos algumas “oportunidades” institucionais e a economia que não está sofrendo solavancos está contribuindo para que a mídia burguesa atenue o sangramento constante para viabilizar a potencial alternativa Tarcísio de Freitas. 

A esquerda institucional não pode entrar na onda do “já ganhou” e subestimar a capacidade de reação da extrema direita que tem sólida representação congressual e pode, com o mínimo de esforço, colocar o governo num bico de sinuca e travar pautas de interesse imediato do governo. A alternativa continua sendo construir no curto espaço de tempo comitês populares pela democracia e poder popular. Montar uma estrutura de comunicação e contato permanente com a população pode ser o primeiro caminho para alavancar a retomada da presença no meio popular. Todavia, qualquer ação, por mais simples que possa parecer, precisa de coordenação e monitoramento para acompanhar a real efetividade e perenidade das ações. As frentes populares poderiam assumir preliminarmente essa iniciativa. Construir ações permanentes que passam pelo contato e investimentos na organização dos diversos seguimentos da sociedade, tendo foco de maneira incisiva nas periferias. 

Imagem: Bruno O./JAMAC